Naldos Heft

STUPID PART OF A BOAT.

Saturday, April 30, 2005

Six Days in April (trailer)

É o último dia do mês que escolhemos. E se abril foi dele, foi meu também. A idéia é fazer uma colagem. Um trailer dos "Six Days in April". Várias cenas já apareceram aqui no blog antes, na Desbundes, em scraps, em e-mails. 254. Eu sentado na beira da cama comendo torta. Seu nariz descascando. O almoço em que falamos de Jane Eyre. Making out. Dizendo que gosto das maçãs do seu rosto. Os beijos furiosos e cômicos. A carta verde. O fosso de ladrilhos azuis. "Diário de Walter Benjamim em Moscou" abandonado na mesa da biblioteca. As músicas que recebi. Você errando o caminho. Tristinho, parecendo ter quinze anos. Gaguejo no telefone. E no hotel enquanto você resolvi a questão das malas fico sentado e colegial. E todos os horários. 11 e 50, meio dia, 9 e 16, você abrindo a porta de camiseta verde. As leituras em voz alta (Proust para o primeiro beijo, Waugh, Cortázar _ cap. 7 de Rayuela, Vonnegut, Woolf) na cama; e eu gostava tanto de quando ela estava desarrumada. Os bombons que milagrosamente foram poupados nos nossos giros. Sua imitação da araponga. A televisão ligada na MTV, na novela, em um programa evangélico. Cortina xadrez, croissant de ricota, amendoins em papel roxo, outros bilhetes. Beijos serenos. Eu disse que colaria o primeiro momento no último. Você segurando as alças da mochila azul, eu digo besteiras. Você de preto, eu de azul claro. Sol a pino. Abraço e você diz algo que me acompanhará além das decepções domésticas, além de meses, além viagens ao Caribe, além de rugas, de trabalho, de doenças, de décadas, de livros e poemas. Porque você disse o que é simples e que niguém havia dito no momento certo. Depois eu acenei e você desapareceu, muro de tijolos. Eu não fui, você não ficou. Eu de preto, você de azul claro. Eu fui e estou aí agora, você está aqui.
É trailer porque espero que esteja apenas começando.

Thursday, April 28, 2005

Bené & Chuchu

Os três pequenos textos a seguir são posts que deixei hoje na minha comunidade mais pessoal do Orkut (Transas & Desbundes da Língua).
Bené & Chuchu 04/28/2005 08:51Ando precisando de outra linguagem. Não como aquela besteira de ficar aprendendo quíchua nas férias e ficar girando em torno da palavra com o significado mais bonito do mundo que é GUAÑUCTA e que, olhem só, quer dizer "ter o bastante". Você diz GUAÑUCTA depois de ter atingido o paraíso, é perfeição pessoal.Nada disso. Quero voltar a um fluxo, como novo estilo. Posso ser hermético de vez. Ou. apelar. para. a. pontuação. Crise. Outro lado da mão do Naldo.(a pesquisadora é fã da Benedita da Silva, a entrevistada pede: Rozeni venha para Lages, assim poderemos ficar mais juntas e sei de um supermercado ótimo). E eu agüento e até me pagavam para isso. Agora faço de graça. Voluntário. Minha mania de correção, de ajudar. De depois que a cozinha explode ficar limpando chuchu que pregou no teto. Outro escritor já.

04/28/2005 10:43E plástico das "Fake Plastic Trees" do Radiohead ( mais batida deles, pela propagandinha). Já gostei de acrílico. E do plástico dos meus brinquedos mais queridos. Mas prefiro pedras e pomadas. Que céu sujo e só acho que sou de uma geração que enfeita o dia porque não tem convicções (eu adoro chavões e "Rebecca" de Du Maurier para ler na piscina). E ando pensando em fazer um ano de intercâmbio quando me formar. Não, não é intercâmbio fora do país (16 anos, highschool em Indiana, algo que já era). É intercâmbio-hedonismo. Ficar fazendo só que eu gosto por um ano e depois morrer pobre e esquecido. Sem dinheiro para chegar ao México. Intercâmbio de plástico, acordando tarde para ler e assistir filmões dos 40, making out etc. .Para esquecer do Naldo-universitário-de-papel-de-descuido-re-risadas. Abençoa Senhor as famílias, Amém!

Too polite 04/28/2005 15:01Ainda é bom acordar porque um dia não dormiremos mais, não é? E no Apocalipse (Cayetano disse a Sierva) há uma noite que nunca amanhece. Saber de amores. Do triângulo da Trindade (aquela pombinha luminosa). E se a linguagem servir para isso ou qualquer ação. Dormir, tomar um lanche, fazer uma declaração, ouvir. Estou deixando a covardia e crescendo. Deixando o too shy, too polite, too lovely. De fazer mais do que esperavam, mais do que queriam. Minueto antes da data marcada, tarefas de casa. T. não me chocou tomando vodka com Sprite porque-o-que-acontece-dentro-do-meu-Peito-Cabeça é bem mais chocante, real e para sempre. Bem melhor. Sujo ou claro demais complexo. Meus diamantes são ultrajantes, meus dias ganham dez versões. E eu ofereço aos outros. Qualquer parte.

Sunday, April 24, 2005

Tingido de vermelho

Ainda manhã e eu colhia acerolas (lembrado de que no último fevereiro não podei aqueles pés). Eu chupava as frutas sem sequer lavá-las e o suco e os pedaços de casca foram deixando meus dedos sujos até que parecessem encharcados de mertiolate. Os meninos brincavam com galinhas e gatinhos ao redor. Apanhei uma única camélia para levar a minha mãe (tão branca, tão logo tingida de vermelho). Subi no antigo pé-de-tamarindos (ainda verdes) e fiquei a quatro metros do chão, balançando e esticando meu corpo como um macaco. Consegui o cavalo mais rápido e parti em disparada para os lados da fazenda do Gumercindo, galope e eu flutuava, nem o sol me atingia. Espinhos ferem e mosquitos enterram em meus braços os ferrões mais delicados do mundo. Incha. Eu gosto. Como do cheiro de estrume. Como do cloro da piscina ondulando meu cabelo. Do calor da ardósia debaixo da toalha. Eu faço "Minhas férias" depois de quatro dias. E ninguém suspeita. Eu disse a ele que a Natureza me adorna. Sim, com formigas e folhinhas também. Com espinhas, com um dente um pouco torto. E é aí que eu sinto a perfeição e o perigo de me achar quase belo demais. Querendo idílios com goiabada e paineiras tão floridas que causem desmaios. Ainda sou um menino do campo, da roça, do Gordura (ainda verde). Que desce do cavalo com as pernas doendo, saltando os degraus da escada, afagando os cães mais infiéis, atrás de bolinhos de milho. Tão logo tingido também de vermelho.

Sunday, April 17, 2005

Monotemático II

Hoje eu percebi que todas aquelas roupas já foram lavadas e passadas. Inclusive as de ontem. A camiseta azul do primeiro dia (em que não nos beijamos e que havia sido comprada expressamente para te agradar _ mensagem subliminar), a calça que você fez esforço para tirar enquanto eu falava de um conto do G.G. Márquez, as meias. E encontrei sua mão desenhada naquela página, meus olhos brilharam e já era um pranto doce. O envelope verde com seu perfume, o livro. Eu fico me agarrando nos pedacinhos que ficaram. Nas lembranças, sem seqüência. Os cinco beijos na mesa de concreto, o almoço no restaurante pretensioso, sua cabeça no meu colo enquanto eu lia. Eu que namoro as palavras agora namoro-namorado. Minha língua torce. A solidez foi destruída. Cantorinhas do interior da Colômbia me emocionam. E se acabou a vez na roda-gigante talvez seja tempo de irmos a outro brinquedo do parque. Os barquinhos mesmo ou. Merry-go-round. Fico vaidoso-feliz-e-tristinho. Consegui atingir o alvo, três argolas na garrafa, dois patinhos derrubados. Panapaná e poeira. Que as horas só confirmam minha escolha e valeu a pena ter tomado o xarope escuro da solidão. Ouvir você dizendo "Naldo, Naldo". Eu brilho.

Friday, April 15, 2005

Sandálias

De sandálias eu brinco de ser grego. Derrapando na fórmica cinzenta da sala de aula, firmando o pé no calçamento da rua. Mas aí eu era um apóstolo tentando levar uma mensagem de amor. Essas coisa de os livros na estante não terem mais tanta importância. Rock nacional que você ouviu ontem sem querer. Que você me pega na porta da escola e enche a minha bola com todo o seu. Pastiche das músicas da geração que agora passa. Os soldados tiraram os uniformes para brincar eu tive um sonho vou te contar. Mas nossas músicas são tão outras. E aos poucos os elos vão ficando mais fortes e quando o olho arde com o shampoo a toalha vem na minha mão. Azul. Eu-metódico. Oh... minha frase mais cômica de hoje foi: "deu certo?".
(Minin' do céu! Cê é bunit' dimais!)
Só prossegue quem não fica mareado: Patrícia e Naldo conversando na mesma mesinha, bosque úmido, pássaro pretinho e depois sopramos aqueles capuchos brancos que espalham plumas. Acho que Paty virou parente de vez hoje. Mais que prima. Algo do meu sangue de rubis e diamantes pingou nela. Por mais chateada e chocada que ela tenha ficado. E depois a felicidade dos five-days-in-april-sem-ter-que-despedir-hoje. O pôr-do-sol-mais-lindo. De onde vem " 'cause every little thing is gonna be all right!".
São os últimos instantes do nosso banquinho na roda-gigante lá no alto. Já posso ouvir o nosso adeus. Tókio, aqui não é Tókio. Eu te amo.

Tuesday, April 12, 2005

Two days in April

Tirando as formigas da minha camiseta, uma folhinha do meu cabelo. Ontem, hoje, o final de semana que está colado nesses dias. A locomotiva passava apitando ao longe e nós na varanda. Dançando no palco de uma boate as primeiras discotecas. Belos atos heróicos em um filme chinês. Em um bar com senhoras carentes de bingo. Meus pés apoiados contra o tronco da árvore, e a casca da árvore fica na memória. O sol no seu rosto, nas sardas. O gramado, pedaços de grama seca cortada na semana passada sobre o verde tenro. A primeira vez que eu gritei seu nome (o sol fingindo um crepúsculo), alguém sentado no ponto de ônibus vira a cabeça, você indo na direção errada (parecia ter quinze anos), eu tristinho e amoroso. O primeiro beijo depois da bússola. Os amendoins. A cama desarrumada, melhor. Constelação de detalhes queridos e o seu sorriso. A verbalização no momento certo. O meu medo de dizer felicidade. Epígrafes e citações para cada beijo. Eu enrolo o cabelo, fico rindo, não paro de falar. Sendo coquete sem querer. Acho que Anne Frank beijou em abril de 45. Preciso confirmar. E brincar de Rayuela, cap. 7 com a sua boca. Perfume de maracujá e mate. Querendo ser um herói de filme chinês e correr com você por um campo cheio de flores, um campo cheio de neve, te derrubar no final. Cabeça de um fora da cama. O seriado continua. Na melhor temporada.

Friday, April 08, 2005

a summer wasting

Hoje eu escrevi que as pessoas andam sendo como peixinhos em áquarios
_ para mim _
e não quero explicar de novo agora. Como expliquei lá.
Mas a imagem bonita permanece e o fato de eu ter escrito a quem.
Lousianna Saturday Night _ dancing in the kitchen 'till the morning light!
Que Kerouac, Nabokov e um milhão de filmes bestas me deram a vontade de
associar
interior dos Estados Unidos a felicidade. A turbilhão de dias quentes
e férteis.Milharais e pescarias, festas da Independência, carrilhões na Virgínia,
Atlanta e Nova Iorque (New York e New Orleans e New Heaven e Newark
_ rs).
Onde tudo é novo e as mães são como Frankie.
E para lá eu me volto,
e a felicidade de agora é como o verão desperdiçado naqueles rios,
árvores cobertas de hera, casas cobertas de hera e sou quase Tom Sayer.
O livro em miniatura que lhe darei.
Em minha janela dos sonhos, aos dezesseis no interior de Indiana,
comprando donuts em Richmond.
Minha foto com quem nas Niagara Falls.
Sem preocupações com política, com notas boas, com amigos reclamando
da ausência.
Não sei se estou lá. De novo. Se o vôo da próxima semana mudará minha
vida.
Eu disse que sendo feliz em Acapulco eu ficaria por lá, no máximo até os
Édens da Califórnia.
Nada _ nada _ já ando achando que o melhor é around the country, inside the country, inside the fields.
' Till the morning light. Que será justamente um crepúsculo.
(Peanuts there).

Sunday, April 03, 2005

I took your waltz

Que você apareceu no final do mês passado;
(mancha azul no céu da madrugada)
e fomos fazendo:
LISTA _ elos de margaridas, ilha do Tesouro (onde estou enterrado),
mapa de cócegas, quilômetros transformados em centímetros, jogos
proustianos e esquadrões de ataque.
Você conheceu meu quarto (o edredon, o fosso) e meu corpo (cafuné e
beijos negociados) _ eu peguei sua gripe e afoguei com chá e "Friends".
Fomos a um convento, ao México, a pequenas cidades do interior
(muros de pedra, cinemas sem telhado)
E a cada dia quando você chega
eu não sei onde lhe colocar
(na estante entre Dickens e Austen, junto ao enxagüante bucal verde,
sob o urso polar, entre os lábios).
Troca de músicas e epígrafes.
E eu quero ser seu vizinho, o operário da obra em frente, o chefe, um
antigo professor de História, seu "pen pal" preferido, seu "roommate",
estagiário, o vendedor da papelaria, o primo que tomava os caldos.
Eu roubaria até o posto da sua esfinge pessoal.
Em noites encantadas e febris seu corpo de bússolas, a luz que existe
dentro do seu ombro me manteriam em êxtase _ o seu simples sono
rumo à diagonal.
(Meus braços-aléias-do-Hyde-Park).
I bow like a Chinese _ pelos momentos do seu dia que me são oferecidos
(eles ficam em um altar _ arroz e incenso).
E termino em suspiros já que apesar das andorinhas e hibiscos nem sei
onde estaremos no final desse mês.
(I took your waltz).

Poema escrito no último 9 de março. Continua valendo, será devidamente atualizado no momento oportuno. (rs)

Friday, April 01, 2005

Peanut

Dias em que apenas as palavras são especiais e as manhãs quando ainda não está muito quente e eu ando rindo sobre a grama.