Naldos Heft

STUPID PART OF A BOAT.

Friday, July 08, 2005

O sol era

O sol era uma estrela moribunda, brilhando pela última vez e não conseguia lustrar nem os retrovisores preparados dos carros. Patrícia e eu sentados no apoio do banco de concreto, atrás dos agasalhos, tanta lã, tantos cordões, o vento, o vento. E falávamos do que é a paixão e em que ela pode se transformar, e falamos em poucos minutos e sob as sombras de duas provas. O cabelo dela se dividia em três, quatro cores e eu brincava de puxar uma linha da luva, bem grossa, bem preta. A luz antes apagava, antes apagava e na cantina escura nós havíamos visto o plantão com Londres-terror-londres e pensado em Luciana e novamente o gramado tinha um ar sinistro e as folhas secas eram leves e todas as outras pessoas eram figurantes, não apareceram gatinhos, apenas minha graça torta e piadas e toda essa conversa sobre paixão-que-também-morre ou paixão-que-também-aumenta. Outra manhã mais escura do que uma noite e restos de neblina presos nos beirais assimétricos do bloco e risadas e gesso e formatura. Mil coisas se misturam e formam essa manhã de 7 de julho de 2.005. E o sentido. A exposição com óbvias bonecas esquartejadas na entrada da biblioteca e velhos aparelhos de TV quebrados com machados (a baquelite como madeira lascada) e eu fazendo dissertação sobre competência tributária valor 30,0 pontos. 30,0 pontos e eu não me sentia culpado por não ter estudado o bastante, me faltam os braços, o projetor de imagens disparou quando a TV caiu, sou feito de plástico, sou
MELODRAMA VITORIANO TROPICALIZADO
(roubei do Rushdie)
basta um cinzento mais apertado na cobertura de lona do céu e a iluminação mais fraca para me deixar virado pelo avesso apesar dos cachecóis e casacões.
Eu tenho medo de que em dia acabe.
P.S.: o dedo do Anjo da Anunciação valeu e eu queria ter sempre esse dedo, não de pedra, não de pedra; só uma questão de segurança, de gostar de vê-lo entre as nuvens e os traços de Giotto ou Fra Angelico. De gostar dos versos que ele faz e da casa com muitos filhos, do quintal com os bichos e de tudo. Da ironia e do que eu adivinho.

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