Naldos Heft

STUPID PART OF A BOAT.

Wednesday, August 03, 2005

Para escrever um parágrafo de ficção

Quanta raiva e quanta tônica para construir um só parágrafo de ficção que disfarce. Ando quase como São João Evangelista ou Tolstoi, a manta xadrez verde, a fuga até uma estação de trem bem pequena, entre o mato, o abandono e a febre. Todos os dias amanheceram logo depois do amarelo na vidraça do banheiro, eu sentado costurando toda a vida anterior-interior, checando as posições e os argumentos filosóficos conseguindo ver que
eu estou pronto
um pinheiro aponta sozinho entre o céu que primeiro está lilás, meu pijama fora de lugar é cinzento e eu posso parecer cansado e pode parecer que eu não dormi porque na verdade não se dorme até que nos levem em um barco com formato de cisne para Avalon ou nos coloquem em um caixão de vidro (o pedaço da maçã incomodando no céu da boca). Esse é o sono, a espera por futuros dias de um reino sem fim com cavaleiros audazes e damas belíssimas, com os sete anões longe da mina, a madrasta morta e o beijo do príncipe. Não durmo, a luz faz o quarto parecer amarelo, uma aranha, um diálogo do Grifo com a Falsa Tartaruga e Alice. Todas essas horas são a base para voltar e preeencher seis meses sobre o tronco caído sobre a água e estudar até os olhos arderem e estudar até os rins paralisarem na cadeira da sala de jantar e ir fazendo isso dia a dia porque a mensagem foi revelada
(escreverei um evangelho, escreverei um romanção de 800 páginas, escreverei um conto de fadas)
e para cumpri-la eu só não posso (ainda)
dormir de verdade.

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