Naldos Heft

STUPID PART OF A BOAT.

Tuesday, March 29, 2005

Slice nº 2

Tempos que estou tentando formular linhas que expliquem como minha vida se transformou em um seriado americano para adolescentes e jovens adultos. Califórnia ou cidadezinha da Nova Inglaterra, até uma espinha nova na testa pode ser o tema para um novo episódio. Já tenho o elenco fixo e aqueles atores e atrizes iniciantes que quero chamar para as participações especiais. Vários clichês plantados. Beijo em roda-gigante, festa de formatura no gramado da escola, Valentine's Day, visitas a presídios cinzentos, dia de pescaria. E várias palavras gostosas que só o Inglês possui. Grace, home, cream, slice, perhaps . Tem sido assim porque tudo anda muito certo e até os problemas parecem programados. No máximo fico com umas dúvidas existenciais leves durante o banho ou antes de dormir. Os conflitos pesados não são para o protagonista. Eu viro a cabeça e vejo as câmeras e sei que meu figurino é coerente com cada cena. Ontem era uma camisa xadrez azul que eu não usava desde de, hoje foi a calça verde velha e camiseta preta. Primeira temporada _ antes minha vida era um filme europeu ruim. Nem o argumento valia a película, nem minha interpretação convencia. Agora sou Naldo, full of bright; sensações estranhas de que as pessoas confiam mais em mim, de que tenho mais amigos do que imaginava, que ser triste e jocoso não faz parte. Faço mais plágios do que gostaria e deformações agradáveis. Gotas de chuva e nuvens coloridas, sem obrigações a não ser pensar nos diálogos românticos, no que vem em seguida (cabana isolada, temporal) e quem sabe não consigo orçamento com os produtores para um último capítulo em Acapulco.

Sunday, March 27, 2005

Sortes Vergiliae

Ainda sigo a mania renascentista de tirar as Sortes Vergiliae, muito nisso de ficar relendo Virgílio eu sei. E hoje:
...ai! esquecido do teu reino e do teu destino! (...) Quais são teus projetos? E que esperança consome teus dias ociosos nas terras da Líbia?
(Livro Quarto da Eneida)
Consola mais do que livro de auto-ajuda (eu imagino porque nunca abri um); melhor do que I Ching. Trecho em que puxam as orelhas de Enéias _ todo distraído com Dido em Cartago (amores de figueira e espuma do Mediterrâneo, das corças avistadas ao longe, dos navios e mantos de púrpura, paixão de abismo). O aviso para que ele retome seu destino, "suas coisas", seu dever. E aí eu penso nos reinos que tenho abandonado por. Que fiquei com raiva hoje e que as Sortes são um aviso também para mim. Mais raiva. Não quero cair no fluxo e começar com frases que não levem a lugar algum. A fazer referências que levem quem quer que seja a adivinhar o que estou sentindo. (Fiquem com o trecho...). Amanhã o mundo recomeça e não sei se quero ficar na Líbia para sempre, se quero partir e depois voltar e no fundo temo que, se for mesmo, Dido não se suicide por mim. Que traga outro para seu leito etc. Figueiras e corças são frágeis, muita areia, muito calor. Páscoa e eu pagão. No próximo ano prometo falar de Jesus (ele estava escondido nos mantos púrpuras de alguma frase acima?). Prometo não sentir raiva nesse dia nem consultar oráculos já que não acredito neles. Nem em nada. Perdi o controle. Se falasse teria falado demais, virado o copo, derrubado migalhas na mesa.
Talvez amanhã eu seja feliz de novo. E só.

Friday, March 18, 2005

Abril

Nos longos rios que não recebem nomes e eu desci desfilando por corredores escuros (ventava? chovia lá fora?) para pegar a pizza. Temos o mundo à disposição _ a cada movimento intestinal podemos solicitar entregadores com remédios e eles virão apesar do vento, apesar da chuva, apesar do sono. E a fome pode escolher entre pratos e pratos. Ando pensando em abril e no que virá, em Thaís preocupada com uma possível tempestade durante nossa Festa Havaiana. Decidimos alugar um gazebo para ficar como abrigo no centro do jardim. Mas será suficiente? E o que é um abrigo. Onde se esconder quando o que acontece é interior. Opalas, células, grafite que quebra fácil. E mesmo que fiquemos protegidos da tempestade (alguns bêbados, eu com a sandália cheia de capim cortado, alguns tristes). Abril está chegando, como estará o Campus, como será sentar no gramado e falar de Frost, como será tomar sorvete, como serão os beijos desse mês, como recitar sem hesitações. Ponto de interrogação de neon.
As imensidões que nos separam (bandeirantes já se aventuraram por ela? quando eu desço da cama ela diminui?) cobertas de relevo insignificante (os Andes não nos separam) serão cobertas. Cobertas de patchwork. Tenho que rir por não usar "colcha de retalhos".
Tive um dia tão bom hoje que nem quero falar dele e me adianto. Falo de abril, de domingo. Que podem ser ainda melhores.
Mas abril é dele.

Wednesday, March 16, 2005

Parri Burger nº8

Por que eu não saio por aí tentando converter as pessoas a minha religião pessoal? Buenos Aires. Alguns esperam Deus, a cura do câncer por algum laboratório de Cleveland, a redução da desigualdade social no Brasil. Eu espero voltar para tardes cinzentas na Avenida de Mayo. Voltar deve ser mais fácil do que uma primeira viagem. Eu devia chatear a todos (aqui é só o começo) com as figueiras enormes, os plátanos soltando folhas pontudas que podiam furar minha testa, os paraguaios vendendo qualquer coisa barata, o que eu vi quando abri a porta do Café Tortoni ou de algum banheiro do Museo Nacional de Arte Decorativa. Como o saibro estava molhado nos parques infindáveis e as flores das cerejeiras estavam ainda verdes. Buenos Aires me ataca e me pede para descrevê-la. Como do avião eu a vi como uma estátua caída, como Paris depois do lançamento de alguma bomba de nêutrons. E o cheiro dos sebos.
Comecei querendo contar sobre o Parri Burguer e não deu tempo. Não faz mal. Fiel, fiel.

Tuesday, March 15, 2005

(blog funciona como Word)
Impelido por uma moeda de um dólar,
rumo aos penhascos e ao mar _
eu o menino de Acapulco.
E nem tenho mais vergonha de.
Peço para que sejamos uma dupla sertaneja,
para ouvir o CD da Wanderléia
e assistir todos os filmes Karatê Kid.
(Você, você)
Diz que comprou um livro sobre mim
e teve a minha cabeça no colo _
gramado, gramado.
O que você pede acontece.
E iremos para Praga, para Montauk, para nossos quartos.
As idéias acabam porque troco tudo por uma palavra sua, por um beijo, por um dia.
(e você ainda não sabe porque eu tenho mania de amendoins).
Felicidade atrapalha?

Monday, March 14, 2005

New windows or higher

Erguido ao terceiro andar; agora posso comandar milhares de vidas de quem passa. Estou quase em casa. Das árvores só o topo. Alguma recompensa o último ano tinha que trazer, nele serão criadas nossas nostalgias mais persistentes. Nele os laços com alguns amigos apertarão até a dor e até que não saibamos mais quem é você-você-eu. Outros laços desaparecerão porque a vida nos lava devagar e a corrente sai sem qualquer sinal. Depois disso só um aceno ao longe _ foi meu colega, estudou comigo. Daniela estava de saia florida e curta e quando o professor perguntou quem gostaria de ser promotor ou juiz e eu disse que eu só queria ser feliz, só feliz. E disse rindo porque achava patético e doloroso ao mesmo tempo _ então ela me apoiou. Ela que veio só há um ano, que é rosa, que as pessoas dizem "patricinha" e eu vi os olhos dela brilhando lá no fundo e ela ergueu a voz de novo e disse "é isso, Ronaldo, nem que eu seja pobre, nem que fique sem o diploma, eu quero só ser feliz também." Fiquei arrependido de ter dito brincando porque ela levou a sério. Como se eu tivesse incutido uma fé falsa em alguém desesperado para acreditar em algo. Porque eu sei que ela sofreu nas férias e só pensa em ter um novo amor com que se ocupar e que eu me ocupo com o meu cada vez mais; e nesse momento eu podia ter quebrado a fé dela. Podia abrir uma ferida enorme, lá atrás dos olhos dela, só com algumas palavras, só com "eu estava brincando, Dani, só brincando." Mas não fiz e senti que começamos a ficar amigos então _ com todos já querendo que o professor esquecesse minha insolência. Eu olhava para ela e olhava e ela me passou um envelope com o diploma dela de Economia. Nascida em 1.981, filha de Tâmara, o timbre do governo. Assim se criam os laços e as nostalgias. Sabendo o que o outro quer. Passou. Daniela riu. Estávamos no terceiro andar, em uma nova sala e inaugurando um novo ano, no topo das árvores (de um cedro, de outra que não sei o nome, de ipês). Ao lado de novas janelas que durarão por um ano. Um ano só. Mas de qualquer forma mais altos.

Saturday, March 12, 2005

VIRGINDADE

E penso se virgindade vai além daquela que é discutida nas revistas para meninas de 13 anos; se sempre guardamos territórios virgens (montanhas verdes, atrás dos joelhos, flores de cerejeira, as linhas da mão continuando). Se cada pessoa que chega, se cada livro ou canção, se cada risada noturna (e os estudantes que ao longe tentam entender Marx e as mocinhas que vendem Côco - Express) _ se isso nos queima em algum lugar diferente; se há presentes preparados para todos. Olhos são sempre virgens ( Hopper me alucinou aos vinte anos). E meu signo é Virgem.É que todo dia algo se perde (o diadema da Natureza de Dickinson, os cadarços do meu tênis, e minha vivacidade murcha). Mas, voltando, às revistas: não se preocupem garotas é apenas o início de outra fase ( então meu botão de "reset" está sempre sendo apertado).

Friday, March 11, 2005

North Pole

Saudades às 10 para as 4 da manhã. Será que eu descobri um depósito de dias felizes? (Lá estão prontos sob a embalagem de acetato ou papel-manteiga). Provas de que minha cabeça gira notavelmente para uma nova direção. Existe um farol no canto da foto, o mesmo de inúmeras propagandas e reportagens de televisão. Um novo pólo para as bússolas aqui. E agora eu sei que guerras se fazem para que em algum momento a fortaleza caia, a chave gire na fechadura da porta de um quarto amarelo, chegue um e-mail e patos brancos desapareçam misteriosamente. Ilhas são exploradas para que sejamos dois na areia (barril de rum, prata espanhola, templos abandonados), para que segredos do corpo aflorem em detalhados mapas de cócegas (acima do joelho _ sopro).
E eu dormindo pesado. Mas a cabeça girou, tenho certeza.

Thursday, March 10, 2005

So dry

O problema são as chatices de sempre e a cada vez que eu percebo que há três dias tudo está. Patty ficou chateada por não ter sido convidada por mim para o cinema de ontem. Estarei secando? Ou será que nunca nada pode estar perfeito? Quando o céu está colorido, o calor já não faz diferença e consigo rir e ficar com a cabeça em outros assuntos e meu coração bate como um peixe na rede, como um terremoto sacudindo as raízes das coisas e já sou coloquial e burro. Mas tudo fica prestes: as aulas desabarão sobre minha cabeça e as desejadas seis horas diárias de estudo, e as discussões sobre formatura e sobre os projetos do estágio. E a monografia e eu penso que quando me aventuro a fazer algo literário (os posts na Desbunde, a esferográfica no caderno usado) tudo volta a estar bem e estou desligado. Mas aí Patty fica chateada e eu tenho que escrever mal aqui.

Wednesday, March 09, 2005

Nichts

Ich will heute nichts verstehen. E até dá vontade de ficar aqui postando em línguas de outros, só enfeitando como se pintasse algum anjinho barroco de uma cor diferente da original. O poço da minha insatisfação, duas borboletas estão paradas sobre minha mão direita e eu as assusto com movimentos primitivos (ao redor do fogo). Por que acabo sendo sempre o feiticeiro que ultrapassa seus limites? Ich kann nichts verstehen: principalmente a demora, a minha insatisfação, a impaciência com quem me convida para algo que antes eu teria aceitado sem hesitar. Cry me a river. Ou estarei debaixo das pedras; de resto eu não sou bobo. Só não quero entender.

Tuesday, March 08, 2005

French music

Músicas em Francês distraem porque não entendo nada do sofrimento elegante e acabam sendo como modelismo (pequenas árvores de plástico, turbinas minúsculas, avec toi), mais um passatempo para essas vésperas de semestre, de reuniões e novos professores e oh: agora tenho a disciplina Medicina Legal na grade horária. E meus colegas já pensam nos cadáveres e eu penso que fazemos de cada hora que não é feliz um esqueleto mais horrível do que o que se esconde sobre o deles. E fico confuso e aparece um samba antigo entre as palavras parisienses e toda minha vida está antes de que complete um mês. Aniversários são perigosos; música francesa não.

Sunday, March 06, 2005

Acapulco

Estou navegando por sites de busca e de agências de turismo; procuro por passagens e tudo para chegar a Acapulco. Nem que seja me arrastando. A cidade das antigas estrelas do cinema, onde meninos se atiram dos penhascos para pegas a moeda de um dólar. O mar azul e referencial. Pacífico sou eu. Levo as espreguiçadeiras nas costas e o que mais for preciso (a trilha sonora já está pronta). Fotos de Liz Taylor no hall do hotel e bebidas ensolaradas tomadas com rodelas de abacaxi _ a possibilidade de atingir os Édens próximos (sim, são muitos) da Califórnia. E ainda dizem que o Taiti ou Veneza são destinos românticos. Beijo com protetor solar labial. Vou quebrar hoje o porquinho de cerâmica, assaltar três bancos desarmado, tocar violão na praça e ler a sorte dos transeuntes. Mas chego a Acapulco.
I have promises to keep.
Sendo feliz eu me perco por lá mesmo.

Saturday, March 05, 2005

O outro (rs)

Eu me torno lentamente outro; o que frustra os planos do anterior. Um menos piegas, menos infame. Quase saindo para o mundo (é mesmo necessário passar um ano em Nova York? algum aparelho nos dentes melhoraria meu sorriso? _ tem gente que acha que Estética é isso). Eu quis ser outro o tempo todo e só agora, entre escorregões na descida da cachoeira, eu vi que consegui. Posso dispensar alguém inconveniente no Messenger, mandar dizer que não estou e não atendê-los, usar correntes no jeans. Vai sempre haver alguém. Já houve Naldo, der Gute _ Naldo, der Schöne _ mas o próximo só fala quíchua (exceto pela palavra Guañucta _ que saiu de vez do meu vocabulário, pur Taita Dius) _ um verbo é uma palavra? Perdi realmente as piores inseguranças, a vaidade de agora é relativa. Am I cool? Talvez. Isso começou com os pensamentos a respeito da minha necessidade de pessoas (mas é mais desejo do que necessidade) e a chance de que o final do outro seja feliz é grande. Ele passará sob o arco-íris (céu de primavera) no Central Park e dirá para o seu amor-definitivo que irão novamente no restaurante húngaro do Brooklin. Sou outro _ o herói.

Tuesday, March 01, 2005

Céu de rodoviária

Ninguém mais suporta minha foto-divulgação; o sorriso eternamente descuidado em uma cara limpinha como só foi no dia em que aquele flash capturou-a. Acho que eu sou mais tímido do que aquela foto, merecia algo mais sério ou introspectivo para me espalhar por aí nos quadrinhos do orkut. E ainda dizem que sou expressivo (expressionista?) _ talvez. Na correria do dia (me queriam até para assistir episódios de Friends em DVD _ Phoebe e Monica atrás da receita exata de biscoitos) fui até à rodoviária pegar minha tia. O ônibus não chegou às 18:00 e fiquei rodando por lado; um cego me perguntou em que cidade estava (!) _ se ele soubesse que eu não sei nem em que mundo estou. E notei que o piso estava sujo como sempre; uma menina de 5 anos chorava pelo pai que estava embarcando para Lavras _ deve ser para lá que vão todos os pais quando estamos prestes a chorar; parecia uma indiazinha. Pessoas que descem apressadas para fumar ou dar um telefonema... esbarrões. Afastei os olhos da plataforma e atingi o céu; nuvens de El Greco (meu preferido) sobre azul e amarelo; a beirada do telhado recortava meu campo de visão. Céu de rodoviária _ a coisa mais limpa que deve existir nessa cidade; mais do que os banheiros de laboratório, do que peças de aparelhos de ressonância magnética; mais do que os sonhos da indiazinha. Por um céu daqueles vale a pena ser operado, é altamente compensatório perder todo o dinheiro acumulado em uma vida e gastar nosso tempo. Eu fico pelo céu; qualquer um _ nem precisa ser esse. (ah... se eu pintasse bem...).