Naldos Heft

STUPID PART OF A BOAT.

Sunday, April 24, 2005

Tingido de vermelho

Ainda manhã e eu colhia acerolas (lembrado de que no último fevereiro não podei aqueles pés). Eu chupava as frutas sem sequer lavá-las e o suco e os pedaços de casca foram deixando meus dedos sujos até que parecessem encharcados de mertiolate. Os meninos brincavam com galinhas e gatinhos ao redor. Apanhei uma única camélia para levar a minha mãe (tão branca, tão logo tingida de vermelho). Subi no antigo pé-de-tamarindos (ainda verdes) e fiquei a quatro metros do chão, balançando e esticando meu corpo como um macaco. Consegui o cavalo mais rápido e parti em disparada para os lados da fazenda do Gumercindo, galope e eu flutuava, nem o sol me atingia. Espinhos ferem e mosquitos enterram em meus braços os ferrões mais delicados do mundo. Incha. Eu gosto. Como do cheiro de estrume. Como do cloro da piscina ondulando meu cabelo. Do calor da ardósia debaixo da toalha. Eu faço "Minhas férias" depois de quatro dias. E ninguém suspeita. Eu disse a ele que a Natureza me adorna. Sim, com formigas e folhinhas também. Com espinhas, com um dente um pouco torto. E é aí que eu sinto a perfeição e o perigo de me achar quase belo demais. Querendo idílios com goiabada e paineiras tão floridas que causem desmaios. Ainda sou um menino do campo, da roça, do Gordura (ainda verde). Que desce do cavalo com as pernas doendo, saltando os degraus da escada, afagando os cães mais infiéis, atrás de bolinhos de milho. Tão logo tingido também de vermelho.

1 Comments:

  • At 1:02 PM, Blogger Normanda Asterixiana said…

    Sei que é uma relação ridícula, mas seu post me lembrou uma canção de Okinawa que eu aprendi há muito tempo atrás...
    Me trouxe um pouquinho de luz, nessa tarde tão, tão cinza.

     

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