MISCELÂNEA I
Tudo vai acabar bem. Tudo vai dar certo para aqueles que não fizeram o que queriam, para aqueles que no momento exato não escolheram a própria felicidade. Aqueles que tiveram uma profissão que nada significava, que dormiram cedo ou olharam demais pela janela. Para os covardes, para os que fugiram, para os que se esconderam, para os que não fugiram. Para os que ficaram no fundo do jardim esperando o cair da tarde. Tudo vai acabar bem, para esses que não são os bons do mundo. Tudo tem que acabar bem porque sou um deles.
Se tudo que eu fiz foi em vão, se tudo se abriga sob a larga tarja de esforço inútil, eu não sei. Eu ainda não tenho certeza se ainda assim é forte suficiente para que eu desista.
Esse é um trecho do início do meu futuro livro "Viagem ao Sul":
Não deixarei que transpareça o que aconteceu antes de viajar. Se matei alguém, se fiquei órfão, se perdi a mulher amada para uma doença incurável, se escapei por pouco da tentativa sempre ruim de um suicídio. Se estava finalmente livre após toda a vida ou se queria ansiosamente me prender ou me enredar em algo. Saí com o que sempre recomendam as pessoas que já fizeram isso nos lugares mais distantes, no Nepal ou na Espanha., minha bagagem tinha roupas todas novas e primeiros livros. Não levava máquina fotográfica, agenda, nem muito dinheiro. Não estava fugindo, tinha uma necessidade enorme de passear, de vaguear em paisagens pouco divisadas. Queria matar alguém, descobrir-me órfão, perder uma mulher amada para uma doença incurável e chegar ao fim de uma tentativa de suicídio.
Não deixarei que transpareça o que aconteceu antes de viajar. Se matei alguém, se fiquei órfão, se perdi a mulher amada para uma doença incurável, se escapei por pouco da tentativa sempre ruim de um suicídio. Se estava finalmente livre após toda a vida ou se queria ansiosamente me prender ou me enredar em algo. Saí com o que sempre recomendam as pessoas que já fizeram isso nos lugares mais distantes, no Nepal ou na Espanha., minha bagagem tinha roupas todas novas e primeiros livros. Não levava máquina fotográfica, agenda, nem muito dinheiro. Não estava fugindo, tinha uma necessidade enorme de passear, de vaguear em paisagens pouco divisadas. Queria matar alguém, descobrir-me órfão, perder uma mulher amada para uma doença incurável e chegar ao fim de uma tentativa de suicídio.
5) Outro trecho de "Viagem ao Sul" (a narrativa de Carolina):
E por uma noite, em (um) amanhecer esquelético ele se foi. Rindo também. Nem ao menos me odiava, havia me atirado daqueles penhascos estúpidos. Ferida e arrastando eu busco. Meu punhal mais fino, meu véu mais brilhante, para que serve uma pessoa quebrada? Do fundo do fogo eu o matarei e só queria matá-lo mil vezes. Mil vezes. Mais de mil vezes. Mais.
Antes daquele quarto havia uma escada estreita de madeira escura. E só passei por ela duas vezes, uma quando subimos juntos, outra quando desci sozinha. O alto era uma pequena catedral com vitrais esplêndidos. O sol fazendo poeira e aranha nos poiais e ele me abrindo. Como se eu fosse uma renda branca rasgando, como se ele fosse vermelho e antigo. Como se ele nunca houvesse nascido. E não soubesse nada a não ser felicidade, alegria, espasmo, amor, braços, pés. Até meus pés. Era a tarde do fim do mundo, lá fora ciclones e nuvens de gafanhotos sobrevoavam as cidades e engoliam as pessoas, as plantações. Escureceu e o céu era um cacho de uvas novas atrás do vidro recortado. Não comemos, não fizemos nada, e se ele tivesse me deixado naquele instante eu teria aceitado. Mas dormindo ali ele prometia uma vida toda e respeito. Apenas uma coberta imunda. Podia chover. Seria perfeito. Eu via a madressilva crescendo e ouvia estalidos de música e de ninhos.
E por uma noite, em (um) amanhecer esquelético ele se foi. Rindo também. Nem ao menos me odiava, havia me atirado daqueles penhascos estúpidos. Ferida e arrastando eu busco. Meu punhal mais fino, meu véu mais brilhante, para que serve uma pessoa quebrada? Do fundo do fogo eu o matarei e só queria matá-lo mil vezes. Mil vezes. Mais de mil vezes. Mais.
Antes daquele quarto havia uma escada estreita de madeira escura. E só passei por ela duas vezes, uma quando subimos juntos, outra quando desci sozinha. O alto era uma pequena catedral com vitrais esplêndidos. O sol fazendo poeira e aranha nos poiais e ele me abrindo. Como se eu fosse uma renda branca rasgando, como se ele fosse vermelho e antigo. Como se ele nunca houvesse nascido. E não soubesse nada a não ser felicidade, alegria, espasmo, amor, braços, pés. Até meus pés. Era a tarde do fim do mundo, lá fora ciclones e nuvens de gafanhotos sobrevoavam as cidades e engoliam as pessoas, as plantações. Escureceu e o céu era um cacho de uvas novas atrás do vidro recortado. Não comemos, não fizemos nada, e se ele tivesse me deixado naquele instante eu teria aceitado. Mas dormindo ali ele prometia uma vida toda e respeito. Apenas uma coberta imunda. Podia chover. Seria perfeito. Eu via a madressilva crescendo e ouvia estalidos de música e de ninhos.
