Naldos Heft

STUPID PART OF A BOAT.

Monday, November 29, 2004

MISCELÂNEA I


Tudo vai acabar bem. Tudo vai dar certo para aqueles que não fizeram o que queriam, para aqueles que no momento exato não escolheram a própria felicidade. Aqueles que tiveram uma profissão que nada significava, que dormiram cedo ou olharam demais pela janela. Para os covardes, para os que fugiram, para os que se esconderam, para os que não fugiram. Para os que ficaram no fundo do jardim esperando o cair da tarde. Tudo vai acabar bem, para esses que não são os bons do mundo. Tudo tem que acabar bem porque sou um deles.
Se tudo que eu fiz foi em vão, se tudo se abriga sob a larga tarja de esforço inútil, eu não sei. Eu ainda não tenho certeza se ainda assim é forte suficiente para que eu desista.
Esse é um trecho do início do meu futuro livro "Viagem ao Sul":
Não deixarei que transpareça o que aconteceu antes de viajar. Se matei alguém, se fiquei órfão, se perdi a mulher amada para uma doença incurável, se escapei por pouco da tentativa sempre ruim de um suicídio. Se estava finalmente livre após toda a vida ou se queria ansiosamente me prender ou me enredar em algo. Saí com o que sempre recomendam as pessoas que já fizeram isso nos lugares mais distantes, no Nepal ou na Espanha., minha bagagem tinha roupas todas novas e primeiros livros. Não levava máquina fotográfica, agenda, nem muito dinheiro. Não estava fugindo, tinha uma necessidade enorme de passear, de vaguear em paisagens pouco divisadas. Queria matar alguém, descobrir-me órfão, perder uma mulher amada para uma doença incurável e chegar ao fim de uma tentativa de suicídio.
5) Outro trecho de "Viagem ao Sul" (a narrativa de Carolina):
E por uma noite, em (um) amanhecer esquelético ele se foi. Rindo também. Nem ao menos me odiava, havia me atirado daqueles penhascos estúpidos. Ferida e arrastando eu busco. Meu punhal mais fino, meu véu mais brilhante, para que serve uma pessoa quebrada? Do fundo do fogo eu o matarei e só queria matá-lo mil vezes. Mil vezes. Mais de mil vezes. Mais.
Antes daquele quarto havia uma escada estreita de madeira escura. E só passei por ela duas vezes, uma quando subimos juntos, outra quando desci sozinha. O alto era uma pequena catedral com vitrais esplêndidos. O sol fazendo poeira e aranha nos poiais e ele me abrindo. Como se eu fosse uma renda branca rasgando, como se ele fosse vermelho e antigo. Como se ele nunca houvesse nascido. E não soubesse nada a não ser felicidade, alegria, espasmo, amor, braços, pés. Até meus pés. Era a tarde do fim do mundo, lá fora ciclones e nuvens de gafanhotos sobrevoavam as cidades e engoliam as pessoas, as plantações. Escureceu e o céu era um cacho de uvas novas atrás do vidro recortado. Não comemos, não fizemos nada, e se ele tivesse me deixado naquele instante eu teria aceitado. Mas dormindo ali ele prometia uma vida toda e respeito. Apenas uma coberta imunda. Podia chover. Seria perfeito. Eu via a madressilva crescendo e ouvia estalidos de música e de ninhos.

Sunday, November 28, 2004

DECLARAÇÃO

Perto, longe, não durmo. Estou cansado porque ondas de sangue me cobrem. Sou romântico e apocalíptico, triste, talvez espere Deus. Tudo é o crepúsculo incendiado, a praia de saibro, os penhascos tomados por lava e feras. É para isso que eu quero te puxar, em êxtase. Seremos calmos, dois sacerdotes vencidos. A noite sempre estará na iminência de cair, o silêncio terá o significado de todas as palavras já escritas.
Quando todos os livros já estiverem queimados e a fuligem da tinta sujar nossas faces. Quando a ruína estiver concluída.
(como um beijo com lágrimas escorrendo em aeroporto)
E o mar se agitar brilhante e escuro
(como Creta, como as selvas)
Eu só quero ter _ construção poética tão frágil _ tua cabeça em meu colo
(pedaço de estátua, sacrifício, solução).

UNSCHOOLED I

É a primeira vez que escrevo aqui. Tudo antes veio de outros lugares, tudo passado a limpo; organizado. Não quero mais ser assim. Quero ser unschooled. Perder o respeito _ até, e principalmente por mim mesmo. Amanheço em Paris e continua tudo cinza. Ontem, distante milhares de quilômetros eu te falei. E me declarei da maneira mais rude, mais grosseira, como eu quero ser agora. Escreverei coloquialmente em três idiomas. Estou me arrependendo desse texto, estou me arrependendo de você. Por isso esse post é provisório. Em algumas horas venho aqui e ele não terá existido. Nem você. Unschooled, sim.

Friday, November 26, 2004

TRECHO I

Esse trecho foi escrito há tempos como abertura para meu "Viagem ao Sul" (em breve ele estará aqui), mas na segunda versão não foi aproveitado. Mas eu o amo; ainda não sei quem "fala mais" nele: o personagem ou eu mesmo.

23/09/03 (colagem de data incerta)
Eu vou tão reto! O fogo dos céus descerá para castigá-los. Todos com seus segredos que eu sei tão bem, com faltas pequenas e horríveis. Vejo uma cortina e pilares de chamas, vêm sobre colinas verdes cortadas por uma única estrada. Isso será para todos os que não entenderam, para os que desperdiçaram seus dons, para os que não leram , não pintaram, não amaram a música, não foram inteligentes e soberbos. Isso virá para os que amaram pouco, poucas vezes. Para os humildes, para os sôfregos que pediram dor e compaixão. Para os que só viram um objeto.
Tudo já é tão escuro que a tarefa deles não era necessária e eu quero que seus túmulos tenham rachaduras enormes. Quero que todos seus aparelhos parem repentinamente de funcionar.
Se a venda deles for retirada por um instante! E pensar que nem isso poderá salvá-los!
Mas nem isso me preocupa mais. Só o grande naufrágio de amor pela palavra escrita, que é onde podemos saber tudo. Lá fica. Lá o que está fica. Orchard House.

Wednesday, November 24, 2004

A ESCULTURA (conto)

Para M.
Poucos dias antes de morrer ele planejava uma nova obra. Como acabávamos de voltar de mais uma das tantas internações que nos roíam ele não conseguia sequer se levantar. E me pediu que trouxesse uma pequena porção de argila, e deixasse sempre um copo d’água a disposição e um pano para que limpasse as mãos. Em pouco tempo havia vestígios de argila por todo o quarto, nos lençóis, nas cadeiras e em seu pijama. Com toda sua concentração ele gastava horas tentando criar algo, sua possível última obra. Modelava e desfazia. Quando encontrei-o no seu derradeiro segundo ainda não havia conseguido. No côncavo de sua mão repousava uma simples bola, perfeita e lisa.
Estou deitada na cama desarrumada, cheia de cobertores sóbrios ouvindo o som dos milhares de automóveis que passam nas avenidas lá embaixo. A cama que ele deixou, seu último e involuntário relevo. As dobras das cobertas formam montanhas e vales, desfiladeiros que se desfazem com o mínimo movimento. O cemitério estava vazio e quente e só quando voltava para casa lembrei do cemitério em Roma onde ele gostaria de estar.
Poucos anos depois de estarmos vivendo juntos, Ivana era uma menina radiante de sardas e cachos de mel, ele resolveu gastar grande parte de suas últimas economias para levar-nos à Itália. Seu reencontro com aqueles lugares tão amados e familiares deixava em seu rosto já triste um permanente sorriso, e falava num italiano estridente, como se reencontrasse também a língua e fosse mágico usá-la novamente. Visitamos seus antigos amigos, romenos, russos, franceses em ateliês decadentes, trágicos. E nas manhãs que passávamos nos parques, enquanto Ivana corria atrás dos esquilos saídos dos seus livros de histórias, passando despreocupada sob a grandeza morta do Arco de Tito, ele dizia apertando meu braço sob a blusa de lã marrom:
_ Você é mesmo, Marta, a mulher mais educada do mundo. Não se surpreende nem mesmo com Roma._ olhava para o sol e as pessoas ao redor_ Minha vida corre perigo, cada vez que venho aqui sinto isso. Só morrerei em Roma. Em qualquer outro lugar viverei cem, duzentos anos, mas estando aqui corro perigo. E no entanto sempre volto. É a quinta vez em sessenta e nove anos. E ria. Estava errado, infelizmente. Morreu hoje a milhares de quilômetros do seu céu de diamante, da grande e eterna cidade do Ocidente. Talvez só isso bastasse para fazer minha filha triste, a menina que amava mais a ele do que a mim_ que só aceitei-o por ela.
Durante anos quando ele me procurava eu ficava gelada, meus músculos desfaziam-se em leite, minutos e minutos imóvel, a respiração controlada, no quarto sempre escuro só haviam aquelas mãos, eu fingia que podia ouvir o mar só para deixá-lo continuar em paz, mil dedos exploravam uma estátua de mármore caída, no fim meu pescoço tinha marcas róseas que demoravam dias para desaparecer, um assassinato silencioso por semana, a vítima que nem ao menos hesita, se entrega em holocausto, muda, sabíamos qual era o meu valor.
O apartamento apesar de velho é confortável e como sempre dizemos brincando às raras visitas que aparecem: tem vista para o mar. Copacabana explode em azul e dourado se projetarmos bem o rosto na janela do quarto virando-o para a direita; se o vendermos o dinheiro será suficiente para algo menor, um carro médio e as dívidas mais urgentes, o que restar ficará na poupança, rendendo aos juros abstratos para os estudos de Ivana, deixaremos a vista para o mar e estaremos novamente em qualquer bairro medíocre, vagamente lembrado por quem quer que seja.
As esculturas que ocupam o quartinho dos fundos podem ser vendidas, procurarei qualquer decoradora que estiver interessada, lhe darei uma porcentagem e todo aquele bronze, madeira e mármore estarão anônimos e desinteressantes em consultórios de jovens dentistas ou médicos; ontem mesmo observando descobri uma bailarina de pedra sabão que será ideal para a sala de espera salmão e rosa de um ginecologista, suas pernas deliciosamente finas e os ombros largos, toda ela cinicamente feminina, preparada para um gesto estudado. As figuras humanas de Jorge sempre são fáceis de se interpretar, mesmo as que vieram da Itália, e assim devem ser as que ele conseguiu vender ou usou como presentes.
Quando tivemos sua doença como certeza Ivana lacrimejou: "papai mas você vai ficar bom logo, nada vai acontecer, não é?" Ele não respondeu, baixou o semblante para a toalha que cobria a mesa, como se forçasse a si mesmo ter paciência com as reações dela, que desde criança jogava areia em nossos olhos.
É espantoso como o tempo passado entre estas paredes me deixou amarga, o bolor mais fino surge sobre os morangos esquecidos numa cesta, meus lábios já contraem-se automáticos, e os motivos que me justificam são os mesmos usados por aquelas mulheres que conhecem mal a si mesmas, garantir o futuro dos filhos, esperar para cuidar dos netos, conseguir um bom emprego. Pequenas e alheias coisas me levam daqui. Não fazem dez horas que ele foi enterrado e já estou a fazer cálculos, planejar. Algo em mim revoltou-se contra esta vida que levei entre os túneis mais profundos durante quinze anos e sete meses? Não fui eu a esposa mais dedicada? Havia sempre o copo d’água em sua cabeceira de doente. Eu nunca reclamei das pequenas manias, manias de velho, manias de artista, da poeira acumulada sobre as peças no quartinho, do cheiro de urina morna nos lençóis dos últimos meses. Eu tinha a chance de morar em lugar bom, não trabalhava fora, Ivana sempre estudou em boas escolas e sempre encontrou sorvete na geladeira quando quis, teve muitos brinquedos, compra suas roupas para ir se divertir com os amigos. O que é um cheiro de urina de velho diante do conforto de minha filha? E no fim, eu o amava? Foi isso que eu disse ao apertar suas mãos enrugadas no último momento, meus dedos de coral tocavam a morte para transmitir essa certeza a ele. Pela primeira vez não foi encenação, minhas lágrimas desceram espessas de verdade e dor, eu não imaginava que iria sentir tanto. Mas foi rápido, aqui estou inócua novamente.
Alguns anos atrás quando ele tinha crises terríveis de nervo e esmurrava toda a mobília, eu ia pegar Ivana na escola imaginando como seria se ele morresse de repente, nesses devaneios eu me via séria num enterro onde a imprensa estaria presente e as coroas de crisântemo ocupassem toda a sala, depois eu continuaria vivendo aqui e indo à praia aos domingos levando nossa cesta de piquenique com sanduíches, bola de vôlei e revistas, então encontraria um homem ideal, da minha idade, com emprego certo_ alguém que conseguisse me soprar vida.
O que sou hoje não me permite mais isso: sou madeira escura e verniz; o amor piedoso e ridículo que comecei a sentir por esse homem que apodrecia lentamente fez um bom trabalho.
Minha primeira professora dizia que um dia eu seria poeta, impossíveis violetas no fundo de um jardim úmido_ não passei de arroz bem brilhante de gordura e de mobília de corredor. Meu hermetismo encontra seus limites, sou vulgar e tenho duas camisolas de cetim, ouço a música eterna dos elevadores, marco seu ritmo com o pé e ainda tenho pretensões: nada do que digo me parece claro, meu pensamento esconde arabescos dourados. Ele está morto ou eu estou morta? Não apareceu nenhum jornalista, provavelmente nenhum crítico de arte lhe fará menção_ boa ou má_ em seus artigos altamente especializados. Sua obra é nula, seu sucesso foi pouco e passageiro. O fracasso também foi meu_ não fui uma boa modelo para suas últimas tentativas, rangi minhas vísceras quando no primeiro ano aqui ele passou uma semana tentando me repetir deformada em madeira e depois em granito. Nunca gostei de escultura, a qualquer uma me parece faltar o delírio total das telas e da música, todas presas demais à matéria. Seria a pessoa mais adequada para lhe fazer os elogios póstumos?
Infelizmente esculturas não apodrecem_ seria belo ver os mal esboçados cavalos de mármore italiano se desfazendo, as armações pequenas de aço desaparecendo_ tudo consumido por organismos vivos. Sei que estou enlouquecendo, Ivana não come nada desde ontem e se eu continuar aqui deitada com rosto afundado nesse cobertor fedorento ela vai continuar assim: muda olhando para as fotos dos dois. Seria ele o pai dela? Não sei. Meu pai sempre foi o tio que me dava balas e revistas em quadrinhos, o homem que vivia lá em casa me batia até meu nariz de foca sangrar_ e eu chorava.
Sei que de nós apenas suas obras restarão, indefinidamente. A vida é anônima demais, só a arte, ainda que acanhada, ferida, doente, comum_ como em suas obras permanece. O tempo se encarrega de destruir-nos, nós de tanto sangue e pensamento, e paralelamente, vai glorificando, construindo em torno de um quadro, de um poema, de uma bailarina de pedra sabão novos significados, conexões com o espírito da época em que foram feitos, como se revelasse aos poucos os lugares onde o cinzel desbastou a pedra, ou as marcas imperceptíveis dos dedos do artista numa simples bola de argila como se a cada segundo a beleza presente no que ele quis criar fosse ficando mais clara, mais acessível e quem sabe se daqui há alguns anos não estarão todos vendo nas pálidas sombras sólidas de Jorge algo que hoje não vêm e que eu também não vejo. A criação se basta.

Wednesday, November 17, 2004

CONTO I : "O filho do psiquiatra"

O FILHO DO PSIQUIATRA Para Luciana

Muitos anos depois, ao vê-lo, Luciana ainda sentiu a mesma perturbação. Acabara de subir no ônibus e reconhecera-o no último banco, o mesmo olhar encantado, a boca levemente aberta. Apenas mais alto.
Sentou-se depressa temendo ser reconhecida. Não era um bom dia. Discussões com a irmã e a partida em breve. Já estava sentimental e trêmula. As sementes balançavam em seu colo. Quanto tempo? O pátio da escola cercado de escadas, a lancheira aberta, ele. Diferente dos outros. Desde o primeiro instante quisera abraçá-lo, entregar-se. Mas não sabia então o que era entregar-se. A cabeça coroada com flores.
O Brasil logo ficaria para trás. Sua cidade quente, sua mãe irritada, o curso incerto na universidade. E também ele. E todos os outros que vieram depois. Virou-se para observá-lo. Ele não notara. Fios brilhantes cruzavam o espaço em movimento. Ele é feio, Lu; alguém lhe dissera no dia da lancheira aberta. Ele é novo aqui. Ele tem onze anos. Palavras como "encalço" – "hiato"- "oração" e ainda "cáries" surgiam. Palavras da época. Algumas músicas, brisa. Empurrou o vidro para afastar o calor.
O som da rua voltou, procurou na bolsa o passaporte. Um cheiro bom de plástico. Por que me esqueci dele? Ele era mesmo feio, calado _ embutido. Ainda era. Bastava o olhar ausente, a boca, as costas encurvadas. Deduziria todo o resto? Devia gostar de cinema, devia ler tudo que fosse abrigado sob o rótulo de NÃO FICÇÃO, devia ser ateu, quase socialista, distraído. Tornara-se como os outros ou não. Talvez ainda fosse virgem. Nesse ponto o pensamento não trouxe o habitual desejo mas outro sentimento. Soluçou. Ele poderia descer a qualquer instante.
E descendo do ônibus, concentrado, crescido, sairia de vez da vida dela. Mentira, você não gosta dele, a amiga loira lhe disse após a aula de Educação Física. Mentira. Ele já saíra. Não bastava não gostar. Ele nunca estivera.
Estava completamente virada encarando-o. Uma lágrima gelada e torta descia. Algumas pessoas ao redor, contentes, pareciam entender tudo. O sentimento não era desejo, era maior ou diverso. Ele era agora todo o passado que ficaria, chicletes, passeios de barco, hippies, avós, tapete do quarto, revistas, pedalar, caminhar na longa avenida, felicidade, banho quente.
Quis atingi-lo, abraçá-lo, entregar-se. Maçã do amor, lápis, férias, ursinho. Poderia falar com ele, irem a algum lugar, ao quarto dele onde ela abriria a blusa. Cabeça coroada de flores. Ele ainda deveria ser virgem e ela poderia corrigir isso. Poderia encontrar seu passado intacto.
Colégio. Depois de um ano de coordenada indiferença ele procurou-a. chovia. Estavam incrivelmente sozinhos em um pavilhão vermelho próximo às quadras inundadas, entre as portas dos banheiros. A perturbação. Oi. A mão dele era uma lágrima gelada apertando seu braço. Eram os fios. Os rostos ficaram juntos, quentes. Luciana eu. Ele era corajoso. Um segundo, trovão e raio, e tudo caiu. Ele soltara seu braço. Nada aconteceria. Luciana, sabe que meu pai é psiquiatra? Pardais, balanços, praia, dívidas, festas. Não sei. Alguém chegou e levou-a. Ferida, incompleta.
Ele estava de pé. Diskman, camisa xadrez aberta e camiseta branca, assim era o seu passado. Vinte anos. A última oportunidade para entregar-se a ele. A brisa levava as flores. Começara a chover. Ele saía, percebendo e reconhecendo-a fez um aceno com a cabeça, muitos anos depois. E desapareceu. O que ela estava deixando? Duas respostas. Nada. A vida que criara. O ônibus continuava parado no ponto. Se corresse conseguiria alcançá-lo, atingi-lo, entregar-se.
Mas virou-se e não se mexeu. Não beijou-a naquele dia, nunca. À frente estava Londres, a neve caía e o calor estava apenas nas saudades. O ônibus partiu novamente, soltou o passaporte, secou o rosto, sorriu.
Quinze dias depois viajava para outros tantos anos distantes.