Naldos Heft

STUPID PART OF A BOAT.

Tuesday, August 09, 2005

Copiado no bolso

Eu trago copiado no bolso um poema em francês
Quelles frayeurs à nous interdites avez-vous
como se esse poema em tinta preta em folha velha
que fala tanto de mim, como se houvesse sido feito
para esse Naldo
connues pour en revenir si indulgent et si bon
e não para outro e me descreve bem no que eu faço e sei
et sachant le travaux des âmes
de conhecer as pessoas, as casas e os segredos,
de ser ciumento e ridículo,
de esperar um céu de estrelas de neón
e confeitos colocados na boca
et ce qui se passe dans les maisons
e ter um paraíso só meu,
um Sputnik só meu _ arcaico_
fabricação soviética de um sobrinho-neto de Gógol
et que l'amour fait si mal?
E que do poema todo eu só mudaria essa frase,
eu riscaria o mal e seria assim:
ET QUE L'AMOUR FAIT SI BIEN
pelo menos por enquanto,
pelo menos.

Thursday, August 04, 2005

As dores são umas loucas I

As dores são umas loucas
(você cantava enquanto a água caía)
Minhas próprias dores são essas loucas, quase pequenas, um bando de meninas na beira do mar. O vento joga, o vento joga. Como se eu tivesse dormido sobre a areia e como se o meu amor só atingisse o ponto de ebulição quando os ciúmes e os temores de abandono fossem grandes. Como se amar valesse ainda mais a pena pelo medo de não poder te reter, e fosse suave e escuro te imaginar me deixando. Nesse instante essas malucas começam a pular e a berrar nos meus ouvidos para que eu
faça alguma coisa
como registrar os raios dos seus olhos ou te telefonar e ser patético. Ferozes elas apostam corridas na minha pista, quebram um pensamento inteiro, um verso delicado, mancham um bilhete seu com mertiolate e puxam a insegurança da gaveta. Só para que eu volte a saber que tudo permanece no lugar, os dias, os sorrisos, as juras e que eu sou feliz e confiado.

Wednesday, August 03, 2005

Para escrever um parágrafo de ficção

Quanta raiva e quanta tônica para construir um só parágrafo de ficção que disfarce. Ando quase como São João Evangelista ou Tolstoi, a manta xadrez verde, a fuga até uma estação de trem bem pequena, entre o mato, o abandono e a febre. Todos os dias amanheceram logo depois do amarelo na vidraça do banheiro, eu sentado costurando toda a vida anterior-interior, checando as posições e os argumentos filosóficos conseguindo ver que
eu estou pronto
um pinheiro aponta sozinho entre o céu que primeiro está lilás, meu pijama fora de lugar é cinzento e eu posso parecer cansado e pode parecer que eu não dormi porque na verdade não se dorme até que nos levem em um barco com formato de cisne para Avalon ou nos coloquem em um caixão de vidro (o pedaço da maçã incomodando no céu da boca). Esse é o sono, a espera por futuros dias de um reino sem fim com cavaleiros audazes e damas belíssimas, com os sete anões longe da mina, a madrasta morta e o beijo do príncipe. Não durmo, a luz faz o quarto parecer amarelo, uma aranha, um diálogo do Grifo com a Falsa Tartaruga e Alice. Todas essas horas são a base para voltar e preeencher seis meses sobre o tronco caído sobre a água e estudar até os olhos arderem e estudar até os rins paralisarem na cadeira da sala de jantar e ir fazendo isso dia a dia porque a mensagem foi revelada
(escreverei um evangelho, escreverei um romanção de 800 páginas, escreverei um conto de fadas)
e para cumpri-la eu só não posso (ainda)
dormir de verdade.