Naldos Heft

STUPID PART OF A BOAT.

Monday, March 14, 2005

New windows or higher

Erguido ao terceiro andar; agora posso comandar milhares de vidas de quem passa. Estou quase em casa. Das árvores só o topo. Alguma recompensa o último ano tinha que trazer, nele serão criadas nossas nostalgias mais persistentes. Nele os laços com alguns amigos apertarão até a dor e até que não saibamos mais quem é você-você-eu. Outros laços desaparecerão porque a vida nos lava devagar e a corrente sai sem qualquer sinal. Depois disso só um aceno ao longe _ foi meu colega, estudou comigo. Daniela estava de saia florida e curta e quando o professor perguntou quem gostaria de ser promotor ou juiz e eu disse que eu só queria ser feliz, só feliz. E disse rindo porque achava patético e doloroso ao mesmo tempo _ então ela me apoiou. Ela que veio só há um ano, que é rosa, que as pessoas dizem "patricinha" e eu vi os olhos dela brilhando lá no fundo e ela ergueu a voz de novo e disse "é isso, Ronaldo, nem que eu seja pobre, nem que fique sem o diploma, eu quero só ser feliz também." Fiquei arrependido de ter dito brincando porque ela levou a sério. Como se eu tivesse incutido uma fé falsa em alguém desesperado para acreditar em algo. Porque eu sei que ela sofreu nas férias e só pensa em ter um novo amor com que se ocupar e que eu me ocupo com o meu cada vez mais; e nesse momento eu podia ter quebrado a fé dela. Podia abrir uma ferida enorme, lá atrás dos olhos dela, só com algumas palavras, só com "eu estava brincando, Dani, só brincando." Mas não fiz e senti que começamos a ficar amigos então _ com todos já querendo que o professor esquecesse minha insolência. Eu olhava para ela e olhava e ela me passou um envelope com o diploma dela de Economia. Nascida em 1.981, filha de Tâmara, o timbre do governo. Assim se criam os laços e as nostalgias. Sabendo o que o outro quer. Passou. Daniela riu. Estávamos no terceiro andar, em uma nova sala e inaugurando um novo ano, no topo das árvores (de um cedro, de outra que não sei o nome, de ipês). Ao lado de novas janelas que durarão por um ano. Um ano só. Mas de qualquer forma mais altos.

1 Comments:

  • At 5:49 AM, Anonymous Anonymous said…

    Bela narrativa. Tu sabes usar as palavras. Aqui estarei novamente. Um abraço.

     

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