Céu de rodoviária
Ninguém mais suporta minha foto-divulgação; o sorriso eternamente descuidado em uma cara limpinha como só foi no dia em que aquele flash capturou-a. Acho que eu sou mais tímido do que aquela foto, merecia algo mais sério ou introspectivo para me espalhar por aí nos quadrinhos do orkut. E ainda dizem que sou expressivo (expressionista?) _ talvez. Na correria do dia (me queriam até para assistir episódios de Friends em DVD _ Phoebe e Monica atrás da receita exata de biscoitos) fui até à rodoviária pegar minha tia. O ônibus não chegou às 18:00 e fiquei rodando por lado; um cego me perguntou em que cidade estava (!) _ se ele soubesse que eu não sei nem em que mundo estou. E notei que o piso estava sujo como sempre; uma menina de 5 anos chorava pelo pai que estava embarcando para Lavras _ deve ser para lá que vão todos os pais quando estamos prestes a chorar; parecia uma indiazinha. Pessoas que descem apressadas para fumar ou dar um telefonema... esbarrões. Afastei os olhos da plataforma e atingi o céu; nuvens de El Greco (meu preferido) sobre azul e amarelo; a beirada do telhado recortava meu campo de visão. Céu de rodoviária _ a coisa mais limpa que deve existir nessa cidade; mais do que os banheiros de laboratório, do que peças de aparelhos de ressonância magnética; mais do que os sonhos da indiazinha. Por um céu daqueles vale a pena ser operado, é altamente compensatório perder todo o dinheiro acumulado em uma vida e gastar nosso tempo. Eu fico pelo céu; qualquer um _ nem precisa ser esse. (ah... se eu pintasse bem...).

0 Comments:
Post a Comment
<< Home