Naldos Heft

STUPID PART OF A BOAT.

Wednesday, November 17, 2004

CONTO I : "O filho do psiquiatra"

O FILHO DO PSIQUIATRA Para Luciana

Muitos anos depois, ao vê-lo, Luciana ainda sentiu a mesma perturbação. Acabara de subir no ônibus e reconhecera-o no último banco, o mesmo olhar encantado, a boca levemente aberta. Apenas mais alto.
Sentou-se depressa temendo ser reconhecida. Não era um bom dia. Discussões com a irmã e a partida em breve. Já estava sentimental e trêmula. As sementes balançavam em seu colo. Quanto tempo? O pátio da escola cercado de escadas, a lancheira aberta, ele. Diferente dos outros. Desde o primeiro instante quisera abraçá-lo, entregar-se. Mas não sabia então o que era entregar-se. A cabeça coroada com flores.
O Brasil logo ficaria para trás. Sua cidade quente, sua mãe irritada, o curso incerto na universidade. E também ele. E todos os outros que vieram depois. Virou-se para observá-lo. Ele não notara. Fios brilhantes cruzavam o espaço em movimento. Ele é feio, Lu; alguém lhe dissera no dia da lancheira aberta. Ele é novo aqui. Ele tem onze anos. Palavras como "encalço" – "hiato"- "oração" e ainda "cáries" surgiam. Palavras da época. Algumas músicas, brisa. Empurrou o vidro para afastar o calor.
O som da rua voltou, procurou na bolsa o passaporte. Um cheiro bom de plástico. Por que me esqueci dele? Ele era mesmo feio, calado _ embutido. Ainda era. Bastava o olhar ausente, a boca, as costas encurvadas. Deduziria todo o resto? Devia gostar de cinema, devia ler tudo que fosse abrigado sob o rótulo de NÃO FICÇÃO, devia ser ateu, quase socialista, distraído. Tornara-se como os outros ou não. Talvez ainda fosse virgem. Nesse ponto o pensamento não trouxe o habitual desejo mas outro sentimento. Soluçou. Ele poderia descer a qualquer instante.
E descendo do ônibus, concentrado, crescido, sairia de vez da vida dela. Mentira, você não gosta dele, a amiga loira lhe disse após a aula de Educação Física. Mentira. Ele já saíra. Não bastava não gostar. Ele nunca estivera.
Estava completamente virada encarando-o. Uma lágrima gelada e torta descia. Algumas pessoas ao redor, contentes, pareciam entender tudo. O sentimento não era desejo, era maior ou diverso. Ele era agora todo o passado que ficaria, chicletes, passeios de barco, hippies, avós, tapete do quarto, revistas, pedalar, caminhar na longa avenida, felicidade, banho quente.
Quis atingi-lo, abraçá-lo, entregar-se. Maçã do amor, lápis, férias, ursinho. Poderia falar com ele, irem a algum lugar, ao quarto dele onde ela abriria a blusa. Cabeça coroada de flores. Ele ainda deveria ser virgem e ela poderia corrigir isso. Poderia encontrar seu passado intacto.
Colégio. Depois de um ano de coordenada indiferença ele procurou-a. chovia. Estavam incrivelmente sozinhos em um pavilhão vermelho próximo às quadras inundadas, entre as portas dos banheiros. A perturbação. Oi. A mão dele era uma lágrima gelada apertando seu braço. Eram os fios. Os rostos ficaram juntos, quentes. Luciana eu. Ele era corajoso. Um segundo, trovão e raio, e tudo caiu. Ele soltara seu braço. Nada aconteceria. Luciana, sabe que meu pai é psiquiatra? Pardais, balanços, praia, dívidas, festas. Não sei. Alguém chegou e levou-a. Ferida, incompleta.
Ele estava de pé. Diskman, camisa xadrez aberta e camiseta branca, assim era o seu passado. Vinte anos. A última oportunidade para entregar-se a ele. A brisa levava as flores. Começara a chover. Ele saía, percebendo e reconhecendo-a fez um aceno com a cabeça, muitos anos depois. E desapareceu. O que ela estava deixando? Duas respostas. Nada. A vida que criara. O ônibus continuava parado no ponto. Se corresse conseguiria alcançá-lo, atingi-lo, entregar-se.
Mas virou-se e não se mexeu. Não beijou-a naquele dia, nunca. À frente estava Londres, a neve caía e o calor estava apenas nas saudades. O ônibus partiu novamente, soltou o passaporte, secou o rosto, sorriu.
Quinze dias depois viajava para outros tantos anos distantes.

1 Comments:

  • At 5:36 AM, Anonymous Anonymous said…

    Gostei do conto, gosto de coisas assim tbm!

     

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