A ESCULTURA (conto)
Para M.
Poucos dias antes de morrer ele planejava uma nova obra. Como acabávamos de voltar de mais uma das tantas internações que nos roíam ele não conseguia sequer se levantar. E me pediu que trouxesse uma pequena porção de argila, e deixasse sempre um copo d’água a disposição e um pano para que limpasse as mãos. Em pouco tempo havia vestígios de argila por todo o quarto, nos lençóis, nas cadeiras e em seu pijama. Com toda sua concentração ele gastava horas tentando criar algo, sua possível última obra. Modelava e desfazia. Quando encontrei-o no seu derradeiro segundo ainda não havia conseguido. No côncavo de sua mão repousava uma simples bola, perfeita e lisa.
Estou deitada na cama desarrumada, cheia de cobertores sóbrios ouvindo o som dos milhares de automóveis que passam nas avenidas lá embaixo. A cama que ele deixou, seu último e involuntário relevo. As dobras das cobertas formam montanhas e vales, desfiladeiros que se desfazem com o mínimo movimento. O cemitério estava vazio e quente e só quando voltava para casa lembrei do cemitério em Roma onde ele gostaria de estar.
Poucos anos depois de estarmos vivendo juntos, Ivana era uma menina radiante de sardas e cachos de mel, ele resolveu gastar grande parte de suas últimas economias para levar-nos à Itália. Seu reencontro com aqueles lugares tão amados e familiares deixava em seu rosto já triste um permanente sorriso, e falava num italiano estridente, como se reencontrasse também a língua e fosse mágico usá-la novamente. Visitamos seus antigos amigos, romenos, russos, franceses em ateliês decadentes, trágicos. E nas manhãs que passávamos nos parques, enquanto Ivana corria atrás dos esquilos saídos dos seus livros de histórias, passando despreocupada sob a grandeza morta do Arco de Tito, ele dizia apertando meu braço sob a blusa de lã marrom:
_ Você é mesmo, Marta, a mulher mais educada do mundo. Não se surpreende nem mesmo com Roma._ olhava para o sol e as pessoas ao redor_ Minha vida corre perigo, cada vez que venho aqui sinto isso. Só morrerei em Roma. Em qualquer outro lugar viverei cem, duzentos anos, mas estando aqui corro perigo. E no entanto sempre volto. É a quinta vez em sessenta e nove anos. E ria. Estava errado, infelizmente. Morreu hoje a milhares de quilômetros do seu céu de diamante, da grande e eterna cidade do Ocidente. Talvez só isso bastasse para fazer minha filha triste, a menina que amava mais a ele do que a mim_ que só aceitei-o por ela.
Durante anos quando ele me procurava eu ficava gelada, meus músculos desfaziam-se em leite, minutos e minutos imóvel, a respiração controlada, no quarto sempre escuro só haviam aquelas mãos, eu fingia que podia ouvir o mar só para deixá-lo continuar em paz, mil dedos exploravam uma estátua de mármore caída, no fim meu pescoço tinha marcas róseas que demoravam dias para desaparecer, um assassinato silencioso por semana, a vítima que nem ao menos hesita, se entrega em holocausto, muda, sabíamos qual era o meu valor.
O apartamento apesar de velho é confortável e como sempre dizemos brincando às raras visitas que aparecem: tem vista para o mar. Copacabana explode em azul e dourado se projetarmos bem o rosto na janela do quarto virando-o para a direita; se o vendermos o dinheiro será suficiente para algo menor, um carro médio e as dívidas mais urgentes, o que restar ficará na poupança, rendendo aos juros abstratos para os estudos de Ivana, deixaremos a vista para o mar e estaremos novamente em qualquer bairro medíocre, vagamente lembrado por quem quer que seja.
As esculturas que ocupam o quartinho dos fundos podem ser vendidas, procurarei qualquer decoradora que estiver interessada, lhe darei uma porcentagem e todo aquele bronze, madeira e mármore estarão anônimos e desinteressantes em consultórios de jovens dentistas ou médicos; ontem mesmo observando descobri uma bailarina de pedra sabão que será ideal para a sala de espera salmão e rosa de um ginecologista, suas pernas deliciosamente finas e os ombros largos, toda ela cinicamente feminina, preparada para um gesto estudado. As figuras humanas de Jorge sempre são fáceis de se interpretar, mesmo as que vieram da Itália, e assim devem ser as que ele conseguiu vender ou usou como presentes.
Quando tivemos sua doença como certeza Ivana lacrimejou: "papai mas você vai ficar bom logo, nada vai acontecer, não é?" Ele não respondeu, baixou o semblante para a toalha que cobria a mesa, como se forçasse a si mesmo ter paciência com as reações dela, que desde criança jogava areia em nossos olhos.
É espantoso como o tempo passado entre estas paredes me deixou amarga, o bolor mais fino surge sobre os morangos esquecidos numa cesta, meus lábios já contraem-se automáticos, e os motivos que me justificam são os mesmos usados por aquelas mulheres que conhecem mal a si mesmas, garantir o futuro dos filhos, esperar para cuidar dos netos, conseguir um bom emprego. Pequenas e alheias coisas me levam daqui. Não fazem dez horas que ele foi enterrado e já estou a fazer cálculos, planejar. Algo em mim revoltou-se contra esta vida que levei entre os túneis mais profundos durante quinze anos e sete meses? Não fui eu a esposa mais dedicada? Havia sempre o copo d’água em sua cabeceira de doente. Eu nunca reclamei das pequenas manias, manias de velho, manias de artista, da poeira acumulada sobre as peças no quartinho, do cheiro de urina morna nos lençóis dos últimos meses. Eu tinha a chance de morar em lugar bom, não trabalhava fora, Ivana sempre estudou em boas escolas e sempre encontrou sorvete na geladeira quando quis, teve muitos brinquedos, compra suas roupas para ir se divertir com os amigos. O que é um cheiro de urina de velho diante do conforto de minha filha? E no fim, eu o amava? Foi isso que eu disse ao apertar suas mãos enrugadas no último momento, meus dedos de coral tocavam a morte para transmitir essa certeza a ele. Pela primeira vez não foi encenação, minhas lágrimas desceram espessas de verdade e dor, eu não imaginava que iria sentir tanto. Mas foi rápido, aqui estou inócua novamente.
Alguns anos atrás quando ele tinha crises terríveis de nervo e esmurrava toda a mobília, eu ia pegar Ivana na escola imaginando como seria se ele morresse de repente, nesses devaneios eu me via séria num enterro onde a imprensa estaria presente e as coroas de crisântemo ocupassem toda a sala, depois eu continuaria vivendo aqui e indo à praia aos domingos levando nossa cesta de piquenique com sanduíches, bola de vôlei e revistas, então encontraria um homem ideal, da minha idade, com emprego certo_ alguém que conseguisse me soprar vida.
O que sou hoje não me permite mais isso: sou madeira escura e verniz; o amor piedoso e ridículo que comecei a sentir por esse homem que apodrecia lentamente fez um bom trabalho.
Minha primeira professora dizia que um dia eu seria poeta, impossíveis violetas no fundo de um jardim úmido_ não passei de arroz bem brilhante de gordura e de mobília de corredor. Meu hermetismo encontra seus limites, sou vulgar e tenho duas camisolas de cetim, ouço a música eterna dos elevadores, marco seu ritmo com o pé e ainda tenho pretensões: nada do que digo me parece claro, meu pensamento esconde arabescos dourados. Ele está morto ou eu estou morta? Não apareceu nenhum jornalista, provavelmente nenhum crítico de arte lhe fará menção_ boa ou má_ em seus artigos altamente especializados. Sua obra é nula, seu sucesso foi pouco e passageiro. O fracasso também foi meu_ não fui uma boa modelo para suas últimas tentativas, rangi minhas vísceras quando no primeiro ano aqui ele passou uma semana tentando me repetir deformada em madeira e depois em granito. Nunca gostei de escultura, a qualquer uma me parece faltar o delírio total das telas e da música, todas presas demais à matéria. Seria a pessoa mais adequada para lhe fazer os elogios póstumos?
Infelizmente esculturas não apodrecem_ seria belo ver os mal esboçados cavalos de mármore italiano se desfazendo, as armações pequenas de aço desaparecendo_ tudo consumido por organismos vivos. Sei que estou enlouquecendo, Ivana não come nada desde ontem e se eu continuar aqui deitada com rosto afundado nesse cobertor fedorento ela vai continuar assim: muda olhando para as fotos dos dois. Seria ele o pai dela? Não sei. Meu pai sempre foi o tio que me dava balas e revistas em quadrinhos, o homem que vivia lá em casa me batia até meu nariz de foca sangrar_ e eu chorava.
Sei que de nós apenas suas obras restarão, indefinidamente. A vida é anônima demais, só a arte, ainda que acanhada, ferida, doente, comum_ como em suas obras permanece. O tempo se encarrega de destruir-nos, nós de tanto sangue e pensamento, e paralelamente, vai glorificando, construindo em torno de um quadro, de um poema, de uma bailarina de pedra sabão novos significados, conexões com o espírito da época em que foram feitos, como se revelasse aos poucos os lugares onde o cinzel desbastou a pedra, ou as marcas imperceptíveis dos dedos do artista numa simples bola de argila como se a cada segundo a beleza presente no que ele quis criar fosse ficando mais clara, mais acessível e quem sabe se daqui há alguns anos não estarão todos vendo nas pálidas sombras sólidas de Jorge algo que hoje não vêm e que eu também não vejo. A criação se basta.
Estou deitada na cama desarrumada, cheia de cobertores sóbrios ouvindo o som dos milhares de automóveis que passam nas avenidas lá embaixo. A cama que ele deixou, seu último e involuntário relevo. As dobras das cobertas formam montanhas e vales, desfiladeiros que se desfazem com o mínimo movimento. O cemitério estava vazio e quente e só quando voltava para casa lembrei do cemitério em Roma onde ele gostaria de estar.
Poucos anos depois de estarmos vivendo juntos, Ivana era uma menina radiante de sardas e cachos de mel, ele resolveu gastar grande parte de suas últimas economias para levar-nos à Itália. Seu reencontro com aqueles lugares tão amados e familiares deixava em seu rosto já triste um permanente sorriso, e falava num italiano estridente, como se reencontrasse também a língua e fosse mágico usá-la novamente. Visitamos seus antigos amigos, romenos, russos, franceses em ateliês decadentes, trágicos. E nas manhãs que passávamos nos parques, enquanto Ivana corria atrás dos esquilos saídos dos seus livros de histórias, passando despreocupada sob a grandeza morta do Arco de Tito, ele dizia apertando meu braço sob a blusa de lã marrom:
_ Você é mesmo, Marta, a mulher mais educada do mundo. Não se surpreende nem mesmo com Roma._ olhava para o sol e as pessoas ao redor_ Minha vida corre perigo, cada vez que venho aqui sinto isso. Só morrerei em Roma. Em qualquer outro lugar viverei cem, duzentos anos, mas estando aqui corro perigo. E no entanto sempre volto. É a quinta vez em sessenta e nove anos. E ria. Estava errado, infelizmente. Morreu hoje a milhares de quilômetros do seu céu de diamante, da grande e eterna cidade do Ocidente. Talvez só isso bastasse para fazer minha filha triste, a menina que amava mais a ele do que a mim_ que só aceitei-o por ela.
Durante anos quando ele me procurava eu ficava gelada, meus músculos desfaziam-se em leite, minutos e minutos imóvel, a respiração controlada, no quarto sempre escuro só haviam aquelas mãos, eu fingia que podia ouvir o mar só para deixá-lo continuar em paz, mil dedos exploravam uma estátua de mármore caída, no fim meu pescoço tinha marcas róseas que demoravam dias para desaparecer, um assassinato silencioso por semana, a vítima que nem ao menos hesita, se entrega em holocausto, muda, sabíamos qual era o meu valor.
O apartamento apesar de velho é confortável e como sempre dizemos brincando às raras visitas que aparecem: tem vista para o mar. Copacabana explode em azul e dourado se projetarmos bem o rosto na janela do quarto virando-o para a direita; se o vendermos o dinheiro será suficiente para algo menor, um carro médio e as dívidas mais urgentes, o que restar ficará na poupança, rendendo aos juros abstratos para os estudos de Ivana, deixaremos a vista para o mar e estaremos novamente em qualquer bairro medíocre, vagamente lembrado por quem quer que seja.
As esculturas que ocupam o quartinho dos fundos podem ser vendidas, procurarei qualquer decoradora que estiver interessada, lhe darei uma porcentagem e todo aquele bronze, madeira e mármore estarão anônimos e desinteressantes em consultórios de jovens dentistas ou médicos; ontem mesmo observando descobri uma bailarina de pedra sabão que será ideal para a sala de espera salmão e rosa de um ginecologista, suas pernas deliciosamente finas e os ombros largos, toda ela cinicamente feminina, preparada para um gesto estudado. As figuras humanas de Jorge sempre são fáceis de se interpretar, mesmo as que vieram da Itália, e assim devem ser as que ele conseguiu vender ou usou como presentes.
Quando tivemos sua doença como certeza Ivana lacrimejou: "papai mas você vai ficar bom logo, nada vai acontecer, não é?" Ele não respondeu, baixou o semblante para a toalha que cobria a mesa, como se forçasse a si mesmo ter paciência com as reações dela, que desde criança jogava areia em nossos olhos.
É espantoso como o tempo passado entre estas paredes me deixou amarga, o bolor mais fino surge sobre os morangos esquecidos numa cesta, meus lábios já contraem-se automáticos, e os motivos que me justificam são os mesmos usados por aquelas mulheres que conhecem mal a si mesmas, garantir o futuro dos filhos, esperar para cuidar dos netos, conseguir um bom emprego. Pequenas e alheias coisas me levam daqui. Não fazem dez horas que ele foi enterrado e já estou a fazer cálculos, planejar. Algo em mim revoltou-se contra esta vida que levei entre os túneis mais profundos durante quinze anos e sete meses? Não fui eu a esposa mais dedicada? Havia sempre o copo d’água em sua cabeceira de doente. Eu nunca reclamei das pequenas manias, manias de velho, manias de artista, da poeira acumulada sobre as peças no quartinho, do cheiro de urina morna nos lençóis dos últimos meses. Eu tinha a chance de morar em lugar bom, não trabalhava fora, Ivana sempre estudou em boas escolas e sempre encontrou sorvete na geladeira quando quis, teve muitos brinquedos, compra suas roupas para ir se divertir com os amigos. O que é um cheiro de urina de velho diante do conforto de minha filha? E no fim, eu o amava? Foi isso que eu disse ao apertar suas mãos enrugadas no último momento, meus dedos de coral tocavam a morte para transmitir essa certeza a ele. Pela primeira vez não foi encenação, minhas lágrimas desceram espessas de verdade e dor, eu não imaginava que iria sentir tanto. Mas foi rápido, aqui estou inócua novamente.
Alguns anos atrás quando ele tinha crises terríveis de nervo e esmurrava toda a mobília, eu ia pegar Ivana na escola imaginando como seria se ele morresse de repente, nesses devaneios eu me via séria num enterro onde a imprensa estaria presente e as coroas de crisântemo ocupassem toda a sala, depois eu continuaria vivendo aqui e indo à praia aos domingos levando nossa cesta de piquenique com sanduíches, bola de vôlei e revistas, então encontraria um homem ideal, da minha idade, com emprego certo_ alguém que conseguisse me soprar vida.
O que sou hoje não me permite mais isso: sou madeira escura e verniz; o amor piedoso e ridículo que comecei a sentir por esse homem que apodrecia lentamente fez um bom trabalho.
Minha primeira professora dizia que um dia eu seria poeta, impossíveis violetas no fundo de um jardim úmido_ não passei de arroz bem brilhante de gordura e de mobília de corredor. Meu hermetismo encontra seus limites, sou vulgar e tenho duas camisolas de cetim, ouço a música eterna dos elevadores, marco seu ritmo com o pé e ainda tenho pretensões: nada do que digo me parece claro, meu pensamento esconde arabescos dourados. Ele está morto ou eu estou morta? Não apareceu nenhum jornalista, provavelmente nenhum crítico de arte lhe fará menção_ boa ou má_ em seus artigos altamente especializados. Sua obra é nula, seu sucesso foi pouco e passageiro. O fracasso também foi meu_ não fui uma boa modelo para suas últimas tentativas, rangi minhas vísceras quando no primeiro ano aqui ele passou uma semana tentando me repetir deformada em madeira e depois em granito. Nunca gostei de escultura, a qualquer uma me parece faltar o delírio total das telas e da música, todas presas demais à matéria. Seria a pessoa mais adequada para lhe fazer os elogios póstumos?
Infelizmente esculturas não apodrecem_ seria belo ver os mal esboçados cavalos de mármore italiano se desfazendo, as armações pequenas de aço desaparecendo_ tudo consumido por organismos vivos. Sei que estou enlouquecendo, Ivana não come nada desde ontem e se eu continuar aqui deitada com rosto afundado nesse cobertor fedorento ela vai continuar assim: muda olhando para as fotos dos dois. Seria ele o pai dela? Não sei. Meu pai sempre foi o tio que me dava balas e revistas em quadrinhos, o homem que vivia lá em casa me batia até meu nariz de foca sangrar_ e eu chorava.
Sei que de nós apenas suas obras restarão, indefinidamente. A vida é anônima demais, só a arte, ainda que acanhada, ferida, doente, comum_ como em suas obras permanece. O tempo se encarrega de destruir-nos, nós de tanto sangue e pensamento, e paralelamente, vai glorificando, construindo em torno de um quadro, de um poema, de uma bailarina de pedra sabão novos significados, conexões com o espírito da época em que foram feitos, como se revelasse aos poucos os lugares onde o cinzel desbastou a pedra, ou as marcas imperceptíveis dos dedos do artista numa simples bola de argila como se a cada segundo a beleza presente no que ele quis criar fosse ficando mais clara, mais acessível e quem sabe se daqui há alguns anos não estarão todos vendo nas pálidas sombras sólidas de Jorge algo que hoje não vêm e que eu também não vejo. A criação se basta.

1 Comments:
At 11:15 AM,
Anonymous said…
Gostei do conto, seu né...me lembrou Caio F., acho que foi a parte da camada de bolor sobre os morangos, sempre virei ler.
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