Naldos Heft

STUPID PART OF A BOAT.

Monday, March 13, 2006

Novamente

(e estar novamente com esse caderno nas mãos é de alguma forma estar em casa)
após algum tempo, após esses meses, as palavras se tornaram raras. Raras mas banais. Como se todo o meu brilho de antes tivesse se apagado e como se nunca mais eu fosse encadear a mínima seqüência das imagens que formam meus móbiles. Que a cada dia o céu está mais dramático e as nuvens (como ovelhas, como espirais de mármore, como se Thelma & Louise estivessem morrendo morrendo) ficam maiores. Que eu fui honrado com festas e aprovações, que eu decidi pelo afastamento dos últimos amigos, pela clausura sentimental ao modo de Jane Austen, que eu fui anulado e minha seiva congelou em pequenos canais. E que até em frente ao espelho eu fui sendo alguém diferente. Não o belo, não o ingênuo _
que eu estive doente-
que eu estive doente-
mas voltei.

Tuesday, August 09, 2005

Copiado no bolso

Eu trago copiado no bolso um poema em francês
Quelles frayeurs à nous interdites avez-vous
como se esse poema em tinta preta em folha velha
que fala tanto de mim, como se houvesse sido feito
para esse Naldo
connues pour en revenir si indulgent et si bon
e não para outro e me descreve bem no que eu faço e sei
et sachant le travaux des âmes
de conhecer as pessoas, as casas e os segredos,
de ser ciumento e ridículo,
de esperar um céu de estrelas de neón
e confeitos colocados na boca
et ce qui se passe dans les maisons
e ter um paraíso só meu,
um Sputnik só meu _ arcaico_
fabricação soviética de um sobrinho-neto de Gógol
et que l'amour fait si mal?
E que do poema todo eu só mudaria essa frase,
eu riscaria o mal e seria assim:
ET QUE L'AMOUR FAIT SI BIEN
pelo menos por enquanto,
pelo menos.

Thursday, August 04, 2005

As dores são umas loucas I

As dores são umas loucas
(você cantava enquanto a água caía)
Minhas próprias dores são essas loucas, quase pequenas, um bando de meninas na beira do mar. O vento joga, o vento joga. Como se eu tivesse dormido sobre a areia e como se o meu amor só atingisse o ponto de ebulição quando os ciúmes e os temores de abandono fossem grandes. Como se amar valesse ainda mais a pena pelo medo de não poder te reter, e fosse suave e escuro te imaginar me deixando. Nesse instante essas malucas começam a pular e a berrar nos meus ouvidos para que eu
faça alguma coisa
como registrar os raios dos seus olhos ou te telefonar e ser patético. Ferozes elas apostam corridas na minha pista, quebram um pensamento inteiro, um verso delicado, mancham um bilhete seu com mertiolate e puxam a insegurança da gaveta. Só para que eu volte a saber que tudo permanece no lugar, os dias, os sorrisos, as juras e que eu sou feliz e confiado.

Wednesday, August 03, 2005

Para escrever um parágrafo de ficção

Quanta raiva e quanta tônica para construir um só parágrafo de ficção que disfarce. Ando quase como São João Evangelista ou Tolstoi, a manta xadrez verde, a fuga até uma estação de trem bem pequena, entre o mato, o abandono e a febre. Todos os dias amanheceram logo depois do amarelo na vidraça do banheiro, eu sentado costurando toda a vida anterior-interior, checando as posições e os argumentos filosóficos conseguindo ver que
eu estou pronto
um pinheiro aponta sozinho entre o céu que primeiro está lilás, meu pijama fora de lugar é cinzento e eu posso parecer cansado e pode parecer que eu não dormi porque na verdade não se dorme até que nos levem em um barco com formato de cisne para Avalon ou nos coloquem em um caixão de vidro (o pedaço da maçã incomodando no céu da boca). Esse é o sono, a espera por futuros dias de um reino sem fim com cavaleiros audazes e damas belíssimas, com os sete anões longe da mina, a madrasta morta e o beijo do príncipe. Não durmo, a luz faz o quarto parecer amarelo, uma aranha, um diálogo do Grifo com a Falsa Tartaruga e Alice. Todas essas horas são a base para voltar e preeencher seis meses sobre o tronco caído sobre a água e estudar até os olhos arderem e estudar até os rins paralisarem na cadeira da sala de jantar e ir fazendo isso dia a dia porque a mensagem foi revelada
(escreverei um evangelho, escreverei um romanção de 800 páginas, escreverei um conto de fadas)
e para cumpri-la eu só não posso (ainda)
dormir de verdade.

Saturday, July 30, 2005

Le tombeau d'Albertine

Je veux aller mourir aux lieux où je suis née;
Le tombeau d'Albertine est prés de mon berceau...
(Marceline Desbordes-Valmore)
Eu não faço rascunho antes e acabo postando por impulso para que depois venham os band-aids e tampem os rombos, não como em versos ensaiados mas algo mais próximo dos longos pensamentos dessas noites de férias ou como os paralelos de ontem à tarde quando eu tomava um sundae na sorveteria de sempre (com Tatá) e via o cardápio deles pela milésima vez na vida, tudo pintado em placas de isopor pregadas na parede. As bordas estão roídas e a tinta acrílica (muito parcimoniosa) mostra a banana-split ideal, vaca-branca, sorvete no melão, vaca-preta, milk-shake, vaca-dourada. O fim do sundae é um laguinho de xarope de groselha o fim do meu pensamento é o sono, a cama é berço repleto de pernas de Albertine, dos olhos de Agostinelli, de tanta gente que aparece aparece e eu não conheci. Talvez o berço esteja _ não só perto, não só perto _ mas sobre a tumba. Não dá para sair do lugar. Mesmo depois do sono ou do xarope de groselha.
Os dias podem ser bonitos o vento sopra e as praças da cidade pequena estão cheias de crianças nos últimos e desesperados momentos das férias (como eu no último segundo de pálpebras abertas em cada madrugada?) e hippies vendendo brincos de arame e prometendo tatuagens. Dei para fazer apostas nesses prêmios de loteria, dei para pintar quadros onde aparecem deus e santos e anjos com corpo de abelha voando e castelinhos e cenas de ópera (Madame Butterfly) dei para uma nova versão. E a escrita de doente passou a indolente.
(oh... com uma epígrafe dessas eu precisava ter feito coisa melhor!)

Wednesday, July 27, 2005

Love me do

Que eu não deveria estar chorando feito um bobo só porque.
Que sou pequeno e queria caber em qualquer ralo feito por pés-de-feijão, pedaços de céu e gigantes que me perseguem,
(Repetindo:
EU NÃO SEI NADA DE SOFRIMENTO ELEGANTE)
Nada e ninguém me consola a não ser a palavra viva do seu amor de novo de novo de novo
E desce um fio de sangue do meu nariz e cai sobre o livrinho de Histórias do nosso romance,
e dói como um alfinete sob a unha,
e eu queria você do mesmo jeito
(Eu não sei o que fiz, se errei, se a falha é do sistema)
Que deveria estar chorando de outro jeito,
mais feio, borrado, berrando seu nome.
(Isso é um bilhete)
Mais do que bobo,
(se fui eu que comecei)
se a corrente me levou e eu não pude me defender
se eu fui mais-do-que-covarde
mais-do-que imperfeito
(Estou sim fazendo cena, atrás de mim o céu pintado com guache está incendiado)
Eu ainda te amo,
Eu mais que te amo.
Mais que dói.

Wednesday, July 13, 2005

Paraíso II

Você vai ao cinema? Lê histórias em quadrinhos? Pois é, aquele rato, aquele pato, e aquele coelho, como é mesmo o nome dele? E aquele marinheiro do cachimbo torto. Talvez o gato que nunca pega o rato, o outro gato que nunca pega o passarinho, ou a ave que sempre corre mais depressa que o coiote. Quero pedras que caem em cima da pessoa e ela só fica achatada temporariamente, bombas que só têm o efeito de sujificar a cara de fuligem, bichos correndo no ar até que eles param e olham para baixo e vêem que o chão acabou. Quero espingardas com nó nos canos, e banheiras cheias de moedas de ouro. Nada de harpas e anjinhos e jardins edênicos; (...) o paraíso que quero é esse.
(palmas para o Rushdie)
O paraíso da minha mão encostada na sua enquanto o táxi erra o caminho sob as árvores e elas voltam na última cena o ipê roxo a paineira e um velho livro com fotos de montagens de teatro MÃE CORAGEM e o carro gira e o sol o sol. Felicidade não tem tampa, nem fundo e toca tudo. Vamos enganar o tempo com a nossa caverna feita de cobertor, com as marcas de ki-chute na parede para passar a dor, como os dois da novela eu sabendo do shampoo que você usa. Não é mesmo 504, é 502 e lá está o portal para.
(Bolo de pipoca, eu li li sim Lampedusa)
O paraíso que eu quero é esse: com a musiquinha da Amelie Poulin _ das "Grávidas" do doutor Drauzio ao fundo, e depois Strokes e as suas bochechas, a correntinha esquecida (dobrou de valor o ouro ralo nas minhas Bolsas), 6 para dar linha e Lizianne e o fosso azul.
Ela viaja de férias sem pagar as coisas da Avon que pediu pela revistinha da colega.
Eu sabia que ia te amar desde o começo.
E quando foi o começo?
Era frio frio quando eu apertei, não eram bombons.
E havia ainda uma foto de Hanneles Himmelfahrt MAS ERA EU EU QUEM ESTAVA INDO PARA O PARAÍSO, ou a própria viagem de erros e poucos minutos já era o paraíso _ porque o carro balançava como um barco e depois.
Você des-apareceu atrás do muro de sempre, aqueles tijolinhos inocentes e ensolarados que engolem meu amor e meu mundo e que fecham todo esse paraíso-romance-sazonal. E em cada lágrima vem uma imagem uma promessa uma lembrança e por onde meu coração andar, você sabe.