Marcelino Pan y Vino
_ Diga: você quer ser frade como os que tomam conta de você? Quer que Mochito volte e que a cabra não morra nunca? Quer brinquedos iguais aos dos meninos da cidade e do povoado? Ou, quem sabe, você quer o cavalo de São Francisco? Ou que Manuel venha brincar com você?
(Marcelino, Pão e Vinho _ José María Sánchez-Silva)
Nessa cena do livro Marcelino está sentado no colo do Jesus-tristonho-de-madeira e ouve essa pergunta. Deus daria qualquer coisa para alegrar o menino (um menino que até tortura insetos). Marcelino escolhe (sim , mesmo os fortes mal suportam) a morte. Sombrio e tranqüilo, o sótão do mosteiro. E eu sempre li a estória de Marcelino desde que pude ler as primeiras letras e ficava choroso-encantado. Jesus às vezes era o vilão. Adormecendo o garotinho até. E longas análises sentimentais sobre esse livrinho que eu posso fazer quando
a cabeça está doendo e espero o efeito da aspirina, meu pé doía tanto de manhã durante o exercício de Previdenciário que não pude sequer movimentar os dedos, e antes que amanhecesse eu sonhei que nossos rostos se fundiam enquanto eu brincava com seus cabelos e em cada fio estava um poema escrito como estava escrito na luva de baseball de Allie e Allie morreu de leucemia e eu (é óbvio) não morri quando tinha sete anos nem tive alguma doença mais grave do que uma caxumba rápida, uma capatapora colorida e as inflamações das amígdalas-pêssegos. Meu exemplar era da minha mãe. Da coleção da Baleia Bacana. Bacana mesmo, vermelha risonha e sorridente, com esguicho na cabeça (tudo estilizado) como um gêiser. Febre, por que Jesus MATOU Marcelino? Só pelo pedido? Porque Jesus mesmo sendo feito de madeira precisava das coisas que o menino levava? Tudo é tão mesopotâmico antes de ser grego como aquela saga de Gilgamesh e Ishtar que fica presa em uma árvore no inferno, tudo ainda é assim hoje porque a menor dor me faz ter essas associações, como se meu reumatismo (eu acho que tenho) fosse reflexo da má vontade dos deuses. E como se o sonho, bem antes que o despertador tocasse, fosse um presente que eu estava apenas desembrulhando. Vou começar a andar com pão e vinho para qualquer eventualidade em sótãos.

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