Naldos Heft

STUPID PART OF A BOAT.

Monday, May 16, 2005

Naldo, voll der Gnade

1) Hoje Dani deixou um scrap assim:
tá tudo bem contigo?
Seu telescópio está ajustado bem no rumo da nebulosa. Será que Dani percebeu que novas explosões virão a partir sementinhas ocultas de "Dramatic Donald"? Ando prestes a escolher novas cores e escrever sobre o tema da salvação pessoal. Santa Teresa de Ávila, essas coisas.
2) Ivana comia um pastel e Patrícia tomava café. Eu nada. Falávamos de como 2.005 está sendo um bom ano. Nos degraus porque as mesas estavam ocupadas.
3) Febre de gripe. Tosses. Ando descolorido. Se os cabelos fossem platinados e ontem eu me lembrei de Lísia dizendo que fim de tarde de domingo é o ponto mais depressivo da semana. É. Não sei se é a gripe ou se é 2.005, último ano na faculdade, último ano nos degraus. Eu devia ter comido algo.
4) Tá tudo bem mas. As palavras não. Ontem eu tentei escrever ficção e foi horrível. Nem ousar eu conseguia.
5) Eu sempre tive a crença de ser um predestinado. Um cavaleiro puro com estandartes brilhando ao sol, um poeta de ilha grega, transeunte parisiense. E às vezes me confronto com meu orgulho e com o pouco que posso fazer com os meus dias. Com a falta de interesse e as aspirinas. Dormir e destruir uma tarde. Porque eu tinha, tinha a certeza que cada dia era dourado e margens de lago e que mesmo quando eu ficava querendo ter outras coisas e estar em outros lugares eu era cheio de Graça. Que eu nasci num telhado virgem cheirando a lírios e meu manto azul estrelado e entardecia. Nasci em uma quarta-feira, como meus pais. E talvez o que é agora é a Anunciação e o Anjo (de Giotto, de rosa) veio me dizer justamente que não sou predestinado e tudo isso. Um Anjo feito das palavras para as quais eu não possuo mais a chave. Não terei Jesus-romanceado, não terei as chagas nem o dom das línguas pela simples chama do Espírito Santo. O Anjo só confirma que eu sou normal. Um pouco besta. Metido mesmo. Eu faço a minha vida a cada dia, copiando do quadro no caderno, indo ao caixa eletrônico, comprando Hume para ler só no ano que vem. Normal. Como os atores de cinema que também lavam o cabelo em casa, ou como o Prêmio Nobel de Economia que gosta de tacos. O "voll der Gnade" era só impressão e desejo. Uma ilusão que talvez volte. Quando as aspirinas fizerem efeito e a febre passar. E prefiro um "pueblo" sujo perto de Bogotá, arreglar rosas do que o Queens. Se ainda fosse para morar na Big Apple.

2 Comments:

  • At 6:32 AM, Blogger Normanda Asterixiana said…

    Leio um medo que não estava ainda antes, embora não consiga definir nem destino nem causa. És predestinado. Somos. Seja o que for, meu amigo que não me fala, estou aqui, ahn?

     
  • At 10:02 AM, Blogger Cayo Candido said…

    Queria inovar neste meu primeiro comentário deste blog. Não só dizer que seu blog é muito bom, existencialista e tals. Queria sei lá... Inovar... Mas enfim... Escrever ficção é reescrever a realidade como queremos ou descrever a verdade da realidade, tudo a partir do nosso ponto de vista... Bien...
    Até, amigo...

     

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