Todos os gatinhos
Encarar todas as manhãs como essa com a cantina sombria pelo céu pesado e poucos minutos antes de uma aula muito longa até marcar data de prova. E meu rosto era sombrio e cinza e preto e minhas mãos dentro do bolso do casaco enorme e as meninas também tinham longos sinais escuros na expressão e na fala e até comer era algo muito opaco e até falar porque no caminho vimos um gatinho no último galho de uma árvore e ele miava querendo descer e ia chover e depois vimos outro gatinho (esse era preto) enfiando a pata em um buraco de terra e Shimenni tentou atrair a atenção deles e não conseguiu, a mãe do primeiro gatinho entrou pelo bueiro e será que ela foi buscar outro gato para resgatar o filhote quase entre as nuvens? Encarar qualquer manhã tão densa de escuridão faz com que. E até na conversa evitamos falar de nós mesmos e falamos dos outros e éramos três e quase não havia mais ninguém nas outras mesas. A grama muito verde e enlutada pelos passos e lodo na base de um coqueiro, acho que isso é o que minha avó chama de dia triste e acho que nem se acendessem todas as luzes fluorescentes daquela cantina (como fazem à noite) a treva se dissiparia. E meu coração de repente estava pesado e chuvoso como se minhas duas mãos e todos os gatinhos e todo o céu estivessem dentro dele e eu voltei para aula para fazer diabruras e falar de. Até marcar prova. Até.

2 Comments:
At 10:44 PM,
Normanda Asterixiana said…
De coração pesado e frio como o céu do teu texto; que me deu, entretanto, saudade de outros tempos, quando a tristeza era cinza mais não era tão densa e eu não tinha tantos anos nas costas e a Morte não se dava tanto a ver nas entrelinhas do dia. Precisando do endereço do empório onde se compram os abraços.
At 1:04 PM,
Anonymous said…
você cheio de gatinhos, isso lembra meiguiçe, mesmo que na realidade gatos inspirem desconfiança...ahn Naldo, a gente suspira muito, você já notou???
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