Sputnik I
De certa forma o caderno não anda servindo bem porque primeiro eu perdi a pontuação correta, depois o fim de várias frases e agora a impressão de estar perdendo letras me persegue. E de querem que eu fale?
_ Que dia enfeitar?
(Vanessa e eu ríamos da nossa professora de Direito Internacional imaginando um flerte dela com um rapaz quarenta anos mais jovem _ candy shop)
_ Não, não estou revoltado com a escrita em si, não estou apelando, só não consigo mais ser
(mas isso é talvez)
nem minimamente sofisticado
Eu tenho mesmo um escorpião por dia no sapato
um buraco ideal onde me enfiar
e antes de dormir eu reflito no Sartre lido da pior maneira possível
(Sartre merece ser lido no banheiro, lembrar)
eu penso nas nossa vidas sendo apagadas como lâmpadas fluorescentes e penso que isso causa dor pela simples profecia e exatidão,
(a lembrança do seu cachorrinho vai para o espaço na Sputnik dos seus genes que não funcionarão mais, a lembrança das nossas depressões desaparecendo na terra)
Meu coração é como uma manga para o Cummings, para o Dylan Thomas, para os dias que eu tento fazer diferente _
é bom o cheiro de amaciante, é fecundo,
(li trezentos informes da Anistia Internacional, analisei um caso da SCJN)
Fui feliz - e - estúpido
Mas feliz comendo meu croissant, nas conversas com essas meninas que tingem os cabelos e não sabem que são anjos
Ivana
Patrícia
Shimenni
(esqueci que o Bloomsday já passou)
Ainda tenho um trabalho a fazer, ouvindo a novela das 8 e tudo. Meus cotovelos de vidro na mesa.
Jamais fui tão inteiro,
tenho uma Sputnik só minha, só minha, só minha.

1 Comments:
At 7:47 AM,
Anonymous said…
Formas, todas simples, vícios e peculiares deslizes, escritores imitam do estilo seus próprios e desnecessários gestos.
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